Crítica | Festival

How It Ends

Sozinho com a gente mesmo

(How It Ends (2021), EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Zoe Lister-Jones, Daryl Wein
  • Roteiro: Daryl Wein, Zoe Lister-Jones
  • Elenco: Zoe Lister-Jones, Cailee Spaeny, Whitney Cummings, Tawny Newsome, Finn Wolfhard, Nick Kroll, Logan Marshall-Green, Bobby Lee, Fred Armisen, Glenn Howerton, Bradley Whitford
  • Duração: 82 minutos

Meu amor
O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria

A pandemia Covid-19 veio para virar a vida da gente de cabeça para baixo. Com a necessidade de ficar trancado em casa, não foi só a quantidade de louça na pia que foi descoberta, todo mundo foi obrigado a ficar consigo mesmo, mais aqueles que moravam sozinhos, mas também aqueles que dividiam o mesmo teto com alguém. Os longos períodos sem sair fizeram com que o se encontrar fosse inevitável, mais do que apenas se encontrar, o conviver intensamente com seus defeitos, traumas e frustrações. How It Ends é exatamente sobre isso.

Ia manter sua agenda
De almoço, hora, apatia
Ou esperar os seus amigos
Na sua sala vazia

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Criando uma representação gráfica para essa convivência forçada, com a personificação dos YS, ou os yourselves, versões das próprias pessoas que são vistas apenas por elas mesmas e com quem elas podem interagir, How It Ends traz uma outra questão que veio com a realidade atual: a percepção muito clara da finitude. Um vírus mortal se alastra pelo mundo, sem cura nem vacina, com o número de mortes crescendo no mundo, o medo é real e o futuro é incerto. A ansiedade mais uma vez é metaforizada, aqui num meteoro, que todos sabem quando e onde que cairá.

Corria prum shopping center
Ou para uma academia
Pra se esquecer que não dá tempo
Pro tempo que já se perdia

Se a ideia é complexa, a execução dos diretores Zoe Lister-Jones e Daryl Wein é bem simples. How It Ends usa o vazio das ruas e as poucas pessoas para falar da enormidade dos sentimentos. Aposta alto nos diálogos muito inspirados de Liza, a própria Lister-Jones (Consumed), e sua YS, uma versão jovem, vivida por Cailee Spaeny (Maus Momentos no Hotel Royale), para falar de vida, tempo, apatia, medo e tantos outros sentimentos. Pelo caminho, as duas têm a chance de encontrar outras pessoas e compartilhar suas angústias e resolver questões. Como bom exemplar indie que é, várias são as participações: Helen Hunt, Olivia Wilde, Lamorne Morris, Bradley Whitford, Finn Wofhard, Nick Kroll, entre outros.

Andava pelado na chuva
Corria no meio da rua
Entrava de roupa no mar
Trepava sem camisinha

É nesses encontros que How It Ends mais uma vez cria uma alegoria interessante, quando faz com que os YS sejam visíveis a outras pessoas. Seja pela proximidade consciente do fim ou pelo contato excessivo consigo mesmo, é um fato que a humanidade, ou pelo menos uma parte dela, mudou. As relações com o mundo, com o outro, com o ambiente e com a própria vida adquirem uma outra conotação quando se passa tanto tempo convivendo com aquela pessoa que sempre esteve tão perto de você, mas você nunca fez questão de escutar, ou mesmo parar para olhar direito. E essa pessoa sempre foi você mesmo. Louco isso, né?

Abria a porta do hospício
Trancava a da delegacia
Dinamitava o meu carro
Parava o tráfego e ria

How It Ends consegue se construir bem em seu próprio propósito de encontro e resolução, traduzindo a maluquice que é se encontrar na solidão do confinamento e da possibilidade do fim. E faz isso de maneira simples, bem humorada, como se estivesse falando da coisa mais banal do mundo.

Um grande momento
Rompendo consigo

[Sundance Film Festival 2021]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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