Crítica | Festival

Human Factors

Do homem

(Human Factors, ALE, ITA, DEN, 2021)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Ronny Trocker
  • Roteiro: Ronny Trocker
  • Elenco: Mark Waschke, Hassan Akkouch, Spencer Bogaert, Marthe Schneider, Karen Margrethe Gotfredsen, Sabine Timoteo
  • Duração: 102 minutos

Um evento. As pessoas nele envolvidas. As reações que ele desencadeia. Essa é a premissa básica de Human Factors, o novo filme de Ronny Trocker, diretor que chamou a atenção em 2016 com seu primeiro longa, o ansioso O Ermitão, premiado em Veneza. Agora, o italiano retorna com a história de uma família franco-alemã de classe média às voltas com com seus pequenos problemas para falar de relações e daqueles elementos que distinguem os seres humanos. Entre eles, ganância, mentira, traição e maldade.

Ao estudar as características e a índole dos animais, contrastando-as com os traços e disposições do homem, encontrei um resultado humilhante para mim.

Mark Twain
Human Factors
Courtesy of Sundance Institute | Foto: Klemens Hufnagl

Trocker trabalha muito bem com o suspense e faz questão de deixar o espectador no escuro, literal e metaforicamente, por bastante tempo. “Acordem crianças, chegamos”. frase dita sem saber a quem quando se chega à casa de veraneio, ainda desconhecida, cenário onde o filme voltará muitas vezes, é, na verdade para quem está do outro lado da tela, que tem que descobrir porque está ali e quem são as pessoas que está acompanhando. O jogo estabelecido é original até certo ponto, mas isso se transforma quando o diretor revela o seu principal dispositivo e descobre-se que, embora saiba trabalhar com ele, não há funcionalidade.

A inventividade na criação das realidades convergentes é perceptível, mas os retornos pesam na regularidade da trama e deixam o longa cansativo. A grande questão de trabalhar com múltiplos pontos de vista é justamente encontrar um equilíbrio que não faça que não faça a trama pesar e esse não é o caso aqui. Isso faz com que algumas das histórias, como a da jovem Laura, sejam menos interessantes. Mas isso não quer dizer que Human Factors não tenha os seus bons momentos e bastante inspiração. A fotografia de Klemens Hufnagl que vai do soturno dos ambientes fechados, destacando a ansiedade em momentos como os da festa adolescente, o ataque político, a respiros como a chegada do tio ou o único momento de comunhão da família está entre as coisas positivas.

Human Factors
Courtesy of Sundance Institute | Foto: Klemens Hufnagl

Há também o que não dê muito certo, como a construção do negativo, na imagem do pai, com planos que parecem mais efetivos no papel do que na tela. Por falar nesta, embora o roteiro, assinado pelo próprio diretor, tente se equilibrar na questão da humanidade e da falha como traço humano, o longa estabelece uma linha para direcionar o julgamento, quando ilumina espaços quando a existência do personagem deixaria de existir ou expõe literalmente seus atos, o que minimiza todas as outras elaborações, enfraquecendo o conjunto até então exposto e o desfecho da principal questão do filme, aquilo que motiva toda a comparação entre os tais fatores do título.

Tematicamente, porém, há algo um pouco mais profundo e interessante quando, além da diferenciação, Human Factors tenta traçar a perda da ingenuidade e o consequente surgimento desses fatores, num jogo entre esperança e deturpação. Falando do homem enquanto espécie animal, suas incongruências e falhas, e dos esqueletos escondidos dentro do armário, que lá permanecem por tempo indeterminado, mesmo que certas situações os exponham. São falhas que permanecem com seus próprios degenerados e vão com eles à mesa do café. É só a mesma família de classe-média de antes, que vive ao lado do trilho do trem, vendo a vida passar como se nada tivesse acontecido. Pelo menos até o surto do filho caçula, que ainda não é como eles.

Um grande momento
Chegando em casa.

[Sundance Film Festival 2021]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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