Crítica | Streaming

Isolado na Pandemia

Caras, bocas e escalada zumbi

(Alone, EUA, 2020)

  • Gênero: Terror
  • Direção: Johnny Martin
  • Roteiro: Matt Naylor
  • Elenco: Tyler Posey, Summer Spiro, Donald Sutherland, Robert Ri'chard
  • Duração: 92 minutos
  • Nota:

Janeiro de 2020. Um novo vírus letal e rápido contágio é descoberto em Wuhan, China. A OMS comunica que há uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional. No mês seguinte, casos do mesmo vírus são detectados em outras partes do mundo. 11 de março de 2020. 118 mil casos em 114 países. OMS caracteriza a nova doença como pandemia. A Covid-19, na vida real, trancou as pessoas dentro de casa no ano de 2020. A associação vírus e confinamento/isolamento já é uma antiga conhecida do cinema, desde os primórdios da mitologia zumbi – a cinematográfica, não a ritualística -, com George A. Romero e é o que está por trás de Isolado na Pandemia, filme que estreia hoje na streaming do Telecine.

Na linha de Eu Sou a Lenda, A Noite Devorou o Mundo e #Alive, o longa, pelo menos em sua primeira parte, enfoca o indivíduo e o afastamento social, o se descobrir desconectado do mundo, algo que prontamente remete o espectador aos primeiros dias de seu próprio isolamento, já que todos ou quase todos os que assistem ao filme de alguma maneira passaram pelos mesmos momentos. Substituindo os zumbis pelo medo de um vírus invisível, é claro. Por essa capacidade associativa, o filme tinha um potencial muito grande, mas há um desacerto difícil de ser superado logo de cara no exagero da atuação de Tyler Posey.

Com uma legião de fãs pelo mundo por seu papel na série Teen Wolf, Posey até funciona bem nas cenas de ação, mas quando há alguma exigência mais emocional ou afetiva, falta claramente um limite, algo que o diretor Johnny Martin (Uma História de Vingança) não parece perceber ou se sente constrangido em impor. Isso que se compreenderia no caso da participação de Donald Sutherland, embora, obviamente, nunca aconteça no mesmo grau (mas ainda acontece, sutilmente, em uma cena específica), mas não com relação aos outros atores do elenco, que conta ainda com Summer Spiro.

Isolado na Pandemia

Martin vem de uma longa carreira de dublê e esteve em filmes grandes como Duro de Matar 4.0, Os Mercenários, X-Men: Primeira Classe e Matrix Reloaded. Esperado, portanto, que em Isolado na Pandemia ele comece com um filme mais introspectivo para depois se dedicar à ação adrenalina pura e simples, ainda que tente encontrar espaço para tentativas de romance. Seus zumbis são mais agitados do que os de Marc Foster e Francis Lawrence em Guerra Mundial Z e o já citado Eu Sou a Lenda, respectivamente, mas para vê-los em ação é preciso sempre criar subterfúgios.

Além da subsistência básica, natural de todos os filmes do gênero, o filme se vale de outras saídas básicas, como outros sobreviventes, e não resiste a clichês e talvez o pior deles seja, sem dúvida, o nome dos personagens. Há também um certo humor involuntário, principalmente nas cenas em que Aidan se põe em risco, nem sempre justificado, como quando vemos a horda de zumbis correndo de um lado para o outro em bloco e, fatalmente lembramos de John Landis em 1983; ou no striptease durante a declaração de amor na varanda que nada tem a ver com aquela de Shakespeare.

Porém, de alguma maneira, tem algo que nos faz ficar ali diante da tela acompanhando as caras e bocas de Posey e os despautérios de seu personagem. Há um certo quê de suspense que questiona se parte daquilo pode algum delírio de reclusão ou não, dada a sucessão de impossibilidades. Faz pensar também sobre essa galera que anda saindo para se aglomerar na rua, como um bando de zumbis descerebrados. Isolado na Pandemia não é um filme original e nem inesquecível, tem também muitos defeitos, mas, sem dúvida, não foi feito para a crítica. Está ali pra divertir e para passar o tempo. Em meio à pandemia real, fique em casa e opte por ele.

Um grande momento
Escalada zumbi

Ver “Isolado na Pandemia” no Telecine

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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