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La civil

A dor da mãe

(La civil, BEL, ROM, MEX, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Teodora Ana Mihai
  • Roteiro: Habacuc Antonio De Rosario, Teodora Ana Mihai
  • Elenco: Arcelia Ramírez, Álvaro Guerrero, Jorge A. Jimenez, Ayelén Muzo, Juan Daniel García Treviño, Alessandra Goñi Bucio, Eligio Meléndez,
  • Duração: 140 minutos

Ver filmes que abordam a atual situação de violência do México, a despeito da qualidade das produções e do apego a elas, de Mente Revolver a A Noite do Fogo, passando pelo documentário Silêncio de Rádio, é sempre triste. Dominado pelos cartéis e sob governos corruptos que se enquadram ao sistema, não são poucos os casos de roubos, sequestros, estupros e assassinatos espalhados pelas cidades e povoados do país. La civil, ganhador do Prêmio de Coragem da mostra Un Certain Regard, no Festival de Cannes de 2021, é mais uma das ficções que trazem a realidade à tona, criando uma narrativa para falar sobre os muitos sequestros e desaparecimentos que nunca pararam de acontecer por lá.

Até 2021, a estimativa era de que havia mais de 80 mil desaparecidos, muitas vezes sem que haja esforços do Estado para a solução dos casos e com as próprias famílias assumindo as buscas. Se histórias terríveis como a de Ayotzinapa chegam à comunidade internacional, revelando a dor daqueles que eram próximos às crianças e adolescentes, muitas outras nunca serão conhecidas fora de seus locais. O filme de Teodora Ana Mihai acompanha a dor e desespero de um mãe, Cielo, depois do sequestro de sua filha, e sua  busca para encontrá-la.

La civil
Agustin Paredes/Menuetto

La civil parte de um começo calmo, que demonstra o cotidiano e o banal da convivência entre uma adolescente e sua mãe; passa por momentos de observação, dando espaço ao sentir daqueles que estão na tela, e encontra uma tensão frenética, quando das buscas, da ansiedade por respostas e até dos confrontos. O roteiro da própria diretora e de Habacuc Antonio De Rosario tenta dar conta de uma complexa trama político-social, que vai além das famílias, e aborda o descaso das autoridades de polícia local; a conivência, e por vezes associação, de parte da comunidade; a brutalidade dos grupos, independente que lado estejam, até porque há uma margem tênue quase sempre ultrapassada no que acontece fora da ficção; e uma situação que escolhe suas vítimas aleatoreamente, como demonstração de poder, reforçando o sistema.

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Ainda que bem elaborado como uma obra de interesse popular, capaz de em sua criação fictícia traduzir aquilo que pretende e o que de fato existe, transitando por vários pontos, La civil tem elementos que causam um certo afastamento, o maior responsável para que o envolvimento com a trama não se dê de maneira rápida. Mihai tem ótimas ideias e é habilidosa na construção de cenas, mas não tem facilidade na direção de atores. Do muito que ela faz sentir, pouco está nas atuações, ainda que momentos catárticos funcionem dentre do contexto geral. Há um descompasso e uma desconexão inicial com a protagonista vivida por Arcelia Ramírez, de Levo Você Comigo e Veronica, que só se superam depois que elementos outros se estabelecem.

La civil
Agustin Paredes/Menuetto

Porém, depois que a tensão e uma certa identificação se concretizam, não há como se desligar daquela mulher e sua busca. Não há como não acompanhar aquilo que acontece dentro de sua casa, um outro lado que o roteiro também se propõe a tratar, no olhar de Cielo para si mesma ou na relação com o ex-marido; ou sua peregrinação à procura de respostas, principalmente porque, sabe-se, muito além de qualidades técnicas e até de seus desacertos, aquilo que se vê é a realidade de milhares de mães mexicanas.

La civil é o retrato de tantas mulheres que, além e apesar de todo o sofrimento, precisam assumir um papel que não deveria ser delas e encontrar forças não se sabe onde para enfrentar aquilo que é muito maior do que elas. E tantas seguem, em perigosas iniciativas e tantas e tantas escavações, em busca de alguma, qualquer resposta.

Um grande momento
A primeira ida à funerária

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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