Crítica | Cinema

Papai É Pop

Se o papai é pop, a mamãe é f***

(Papai é Pop, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Caito Ortiz
  • Roteiro: Luísa Guanabara, Ricardo Hofstetter, Maíra Oliveira
  • Elenco: Lázaro Ramos, Paolla Oliveira, Elisa Lucinda, Leandro Ramos, Dadá Coelho, Malu Aloise, Ariclenes Barroso, Thiago Justino, Marcos Piangers
  • Duração: 108 minutos

Há um fino equilíbrio em Papai é Pop que é ao mesmo tempo sua principal força e também sua pretensão mais profunda, alcançada. Livremente baseado no livro de Marcos Piangers, o filme encontrou lá esse seu binômio de sucesso, a sensibilidade tão aguçada e a diversão tão verdadeira. Não é uma gangorra fácil de manter estável, mas a soma desses elementos aqui parece inclusive ser administrada no campo do acerto irrestrito. A verdade é que essa estreia nos cinemas nunca deixa de puxar nosso tapete em direção à surpresa positiva. Indo através da aceitação de que não se trata de um filme infantil (na verdade, nem infanto-juvenil), e sim uma proposta cheia de camadas das novas configurações familiares e particulares, que resultam na criação de novos sujeitos. Ou ainda da maquinação de adestramento de um velho sujeito, que precisa emergir para um tempo de amadurecimento, nem que seja na força da obrigatoriedade.

Outro equilíbrio que se estabelece como positivo é que une o cômico e o dramático, que é ainda de mais difícil acerto. Temos a percepção de que todos os envolvidos, ainda que para desenvolver a comédia, tinham convicção de suas responsabilidades enquanto artistas. Agindo com a verdade estabelecida de cada um, tudo que é de gênero adquire um grau de veracidade sem fórmula; o que vemos é uma família em formação, outra em compreensão. Esses lugares chegados por cada sujeito em cena não passa de uma troca de energia e da total apreensão dos valores de cada personagem, de cada ação, de cada vivência. Sua bagagem emocional define os laços de afeto que acompanhamos serem estabelecidos, e contribui para nossa conexão tão sincera com tudo que é encenado. 

Papai É Pop
Stella Carvalho/Divulgação

Raramente é dada a importância necessária a montagem de um longa de metragem com elementos cômicos, mesmo que essa tarefa seja de realce sutil. Isso porque há uma deficiência exatamente na edição para a comédia, que muitas vezes é o principal calcanhar de Aquiles dos erros de uma produção com essa intenção. O timing para o humor tem sido menosprezado, deixando evidenciados as deficiências de roteiro e de direção, que alargam os tempos entre o fim de uma piada e a próxima cena. O trabalho de Federico Brioni é, nesse sentido, excepcional, porque trata-se de impor um ritmo de execução importante para efetivar seu gênero, e que não vem sendo apresentado costumeiramente com o grau de importância que é necessário. 

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A parceria de Brioni com o diretor Caito Ortiz já tinha garantido a O Roubo da Taça as qualidades que vimos apresentadas, mas ainda que elementos dramáticos rondassem a essência do longa anterior, não estavam lá alguns elementos aplicados aqui. Existe um grau de afetividade emocional que não é obrigatório a um título ambientado em um recém criado ambiente familiar, mas que aqui é aplicado com sucesso. São sutilezas imperceptíveis a um olhar mais generalizado, mas que não passam despercebidas quando pensamos no que funciona ou não em um filme. O ritmo afiado, que elabora em blocos os contextos de cada nova fatia do filme, é uma progressão de suas próprias qualidades de projeto, que pensa a agilidade sem arrancar personalidade do filme. 

Papai É Pop
Stella Carvalho/Divulgação

Como já dito, Papai é Pop nos prega peças positivas durante todo o percurso, mas talvez o desenvolvimento narrativo seja a maior das surpresas. Não porque o protagonista Tom, o tal papai pop do título, seja demonstrado como um típico “boy lixo”, mas porque seu resgate seja de fato crível, e bem pouco particular. A verdade é que o papai pode até ser pop, mas como homem e marido, Tom só deixa a desejar, pra dizer o mínimo. A personagem de Dadá Coelho mata a charada muito rápido, e tenta fazer a amiga Paolla Oliveira abrir os olhos sobre a clara armadilha que aquele homem é – um sujeito encostado emocionalmente, cheio de questões afetivas do passado para resolver, que trata a esposa como mãe. Ou seja, conhecemos quantos caras assim? Lázaro Ramos, a despeito de encarnar um típico clichê ambulante, consegue transformar esse tipo em um ser humano de verdade, com todas as suas contradições, com seus medos, com suas falhas. Mesmo sua vontade de acertar não pega no tranco com frequência, e é preciso que as mulheres ao seu redor situem suas ausências, derivadas de um outro pai, bem pouco pop. 

É muito emocionante perceber, bem longe do final, que o Papai é Pop da ficção não seria ninguém se não tivesse mulheres muito mais pops ao seu lado. Na verdade, há muito pouco sobre paternidade efetiva a ser dito aqui, e muito mais sobre a construção de um lugar no mundo para um masculino que é abarrotado de falhas, inclusive como pai. As duas mulheres que o ladeiam, tanto sua esposa quanto sua mãe, são as verdadeiras donas da história. São elas que norteiam não apenas o filme, mas toda a tentativa de reconstrução desse cara que teve os piores exemplos para chegar onde chegou. O roteiro do filme nunca as coloca como mulheres responsáveis por um resgate, mas como duas criaturas ativas profissional e emocionalmente, que tomam decisões difíceis e incertas para o bem estar maior, a família. São literalmente as donas da porra toda sem pedir qualquer licença.

Papai É Pop
Stella Carvalho/Divulgação

E se Lázaro está muito bem em cena, Paolla é uma revelação. Nunca tinha se mostrado uma atriz tão fora de sua zona de conforto, tão entregue emocionalmente a um projeto, e tão cheia de personalidade. Levando em consideração que ela não cansa de evoluir como atriz, esse é um momento muito especial em sua carreira, que vem sendo de crescimento constante. Quanto a Elisa Lucinda, o filme deve a ela seu ponto de equilíbrio. Como Paolla, não tinha sido vista tão à vontade, dona de uma verdade absoluta, repleta de humanidade. O cinema talvez nem soubesse que devia a Lucinda esse lugar, mas ela foi lá e o tomou. Com duas interpretações tão catalisadora de emoções verossímeis, de naturalismo, ficou bem mais fácil pro papai ser pop, e poder olhar para esses exemplos de força e estrutura para tentar ser um homem capaz. 

Um grande momento
Apanhando no banho

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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