Crítica | Festival

Loucos por Justiça

Um grupo singular e seu líder

(Retfærdighedens ryttere, DEN, 2020)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Anders Thomas Jensen
  • Roteiro: Anders Thomas Jensen
  • Elenco: Mads Mikkelsen, Nikolaj Lie Kaas, Roland Møller, Gustav Lindh, Nicolas Bro, Lars Brygmann, Morten Suurballe
  • Duração: 116 minutos

Anders Thomas Jensen tem uma carreira longa no cinema, mas poucos longas como realizador. Em 1998, ganhou um Oscar de curta-metragem por Election Night e desde então só lançou outros cinco filmes como realizador, e o mais recente foi selecionado para abrir o Festival de Rotterdam, Loucos por Justiça. Voltando a trabalhar com Mads Mikkelsen, o cineasta arma seu filme com uma profusão de gêneros, e embora a comédia criminal prevaleça, o drama familiar e o thriller também compõem a narrativa de caráter popular, uma produção que poderá ser apreciada pelo mais diverso público possível.

Essa universalidade temática não tira absolutamente de uma zona de invenção, ainda que tudo seja ainda mais relevante no ponto de partida. Quando um dos protagonistas (vivido por Nikolaj Lie Kaas, de Crimes Ocultos) é demitido por apresentar um aparente alucinado projeto que questiona os limites que separam as coincidências das probabilidades, o espectador não demora a perceber o impacto desse prólogo – um somatório de eventos o une a vida do outro protagonista, vivido por Mikkelsen, após um desastre de trem, e assim Otto precisará convencer Markus que não existiu acaso em sua tragédia pessoal.

O filme encampa esses dados com muita eficiência, encadeando cenas que sugerem que a sucessão de acontecimentos se interligam e não apenas foram colocados à disposição do destino. O filme volta a encampar essa discussão aqui e ali sempre pontuando os detalhes que acabam por conectar seus pontos dispersos, mas os interesses do filme acabam sendo percebidos de forma menos sutil do que poderia, quando os elementos policiais invadem o roteiro e o filme acaba deixando para tratar pontualmente da sua premissa, abraçando de vez a investigação que um grupo de desajustados empreende na captura de uma quadrilha também pouco usual.

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Riders of Justice

Ainda que também a esse novo segmento Jensen apresente competência na condução e destreza ao tratar da relação entre pai e filhas sobreviventes à morte da mãe, seu luto e sua relação alicerçada em escombros, a verdade é que o filme perde um ponto de partida dos mais instigantes para se conformar com uma abordagem mais convencional sobre relações familiares e construção de novos laços a partir de deslocados sociais. Embora não falte qualidade no que se propõe a enfim apresentar, não podemos deixar de observar uma queda clara de intenções, conformando-se em entreter com talento.

Sendo protagonizado por um ator mais que globalizado como Mikkelsen (que é o protagonista do provável próximo vencedor do Oscar de filme internacional, Druk – Mais uma Rodada) e com essa abrangência de tratamento de enredo e ampliação de debate do abstrato para o humano, Loucos por Justiça é o típico filme que abre um festival, cumpre seu papel de chamar atenção para o evento e suas qualidades, mas não se compromete ao ousar em sua estrutura e apenas obedece padrões convencionais com poucas escapulidas aqui e ali para um olhar menos seguro sobre sua fôrma.

Se tem algo que de fato faz a diferença no longa de Jensen, é seu elenco – talvez seja, em sua essência, um filme para eles, mesmo. É um grupo de trabalho muito coeso, onde sobra espaço para todos brilhar e todos tem belos solos em Loucos por Justiça, tem muita democracia na forma como é distribuído papéis tão significativos para todos do grupo. E obviamente, Mikkelsen se sobressai mais uma vez, um ator que há pelo menos 10 anos não nos cansa de provar sua versatilidade, sua sensibilidade e seu talento.

Um grande momento
Explosão no banheiro

[International Film Festival Rotterdam 2021]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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