Crítica | Outras metragens

Lyz Parayzo Artista do Fim do Mundo

(Lyz Parayzo Artista do Fim do Mundo, BRA, 2019)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Fernando Santana
  • Roteiro: Fernando Santana
  • Elenco: Lyz Parayzo
  • Duração: 16 minutos
  • Nota:

“o que adianta você ter foto da Dilma no seu facebook se você não ajuda a artista suburbana a montar um trabalho no Jardim Botânico? Pega a fotinho da Dilma e enfia no seu cuzinho”

Eu sei que após essa apresentação, texto algum pode falar mais ou melhor sobre Lyz Parayzo, artista performática nascida e criada em Campo Grande, zona oeste e periférica do Rio de Janeiro, que não se define como tal – nem como artista, que pra ela é muito mais um ‘estar’ do que um ‘ser’. Seguindo os moldes do nosso tempo, Lyz é senhora da sua narrativa, do seu tempo e da sua história, adquiriu autonomia para se auto declarar o que quiser e bem entender com as normas da gerência que todos temos com nossas vidas, hoje. Nem sempre foi assim para pessoas como Lyz.

Fernando Santana talvez se identifique com o conceitualismo de Lyz porque também é um artista de vanguarda; DJ e videomaker, assim como sua personagem trabalha com o corpo e transforma o corpo da protagonista em potência transformadora agindo nas periferias dos ângulos, dos enquadramentos e da decupagem para subverter seu filme, e dar a ele a mesma cadência que encontrou em Lyz, que é tão multifacetada quanto o produto que carrega seu nome.

O olhar de esguelha, como quem não deseja incomodar, que flagra as cções através não da frontalidade mas do detalhe sinuoso, é a forma como Santana encontrou para não apenas deixar o foco para a performance, a ação dramática que Lyz infere contra o espectador, também paralelamente é o meio de homenagear a própria referência artística que filma, que é calcada no risco e no ruído desconjuntado que sua figura propõe. A ‘artista do fim do mundo’ é um retrato fidedigno da opressão ao corpo periférico que rebate ao opressor com mais virulência e vigor.

O filme não tenta seguir qualquer cartilha porque entende desde sempre que ter uma diretriz seria como tentar domar parte do fascínio que é objeto integrante e indissociável de Lyz Parayzo. Ainda que utilize um recurso de entrevista para pautar a narrativa, a desconstrução também se coloca nesse ambiente tradicional do documentário para transformar as imagens, a forma de captá-las e principalmente o corpo de sua edição, não à toa já premiada, com uma efervescência proveniente da própria personagem; é como se sua aura tivesse percorrido cada decisão do filme.

Todos nós conhecemos Lyz, eu vivi com muitas Lyz(es) e me espelhei em muitas dessas criadoras de arte contemporânea, inteligentes e ferozes com suas performances incensuráveis. Lyz Parayzo é um manifesto sobre o lugar onde podem chegar Linn Da Quebrada, Leona, Jup do Bairro e também artistas que não trazem humor ao mundo, e sim consciência e pulsão libertária para corpos não hegemônicos fazerem não apenas o que quiserem, mas quando e onde quiserem, e, como a própria Lyz diz, pelo tempo que quiserem.

Um grande momento
São muitos, porém… o achaque da polícia já nasce transgressor enquanto ferramenta política.

[4º Ecrã]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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