(Martírio, BRA, 2016)
Documentário
Direção: Vincent Carelli, Ernesto Carvalho, Tita
Duração: 160 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

Mais uma vez o cinema volta as lentes à questão indígena. E, como sempre, não é demais e nem fora do tempo. Com uma abordagem pessoal, dada a ligação de Vincent Carelli à causa dos Guarani-Kaiowá, filmados por ele desde os anos 1980, Martírio apresenta ao público a perseguição e o massacre à aldeia indígena do Mato Grosso do Sul.

É impossível não pensar em tudo aquilo que está sendo exposto, na luta de cada uma daquelas pessoas para recuperar algo que sempre foi delas. O mais assustador é que o extermínio está aí acontecendo e poucos sabem ou querem saber. Não fosse uma grande campanha nas mídias sociais, quando muitos acrescentaram a seus perfis o nome Guarani-Kaiowá, poucos saberiam de sua existência.

Apenas para refrescar a memória, a campanha virtual iniciou-se quando os indígenas foram despejados mais uma vez de suas terras e enviaram uma carta aberta às autoridades falando em morte coletiva e pedindo para que fossem enterrados naquele lugar. “Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação/extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais.” O tom pode parecer melodramático e exagerado, mas depois de uma luta pela resistência de quase 100 anos, pode-se entender o que eles querem dizer com isso.

Chacinas e ataques são pouco noticiados pela mídia, mas ocorrem cotidianamente, como aconteceu na semana passada, por exemplo (e essa frase vai valer para quem ler o texto no dia de sua publicação e para quem o ler daqui a muito tempo). A sede dos latifundiários pela posse de uma terra que nunca foi deles originariamente é insaciável e não há humanidade, lei ou qualquer outra coisa que os impeça de derramar sangue por isso.

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De maneira didática, Vincent Carelli, em parceria com Ernesto Carvalho e Tita, dá uma aula sobre a ocupação das terras dos Guarani-Kaiowá e o histórico resistência da tribo, com gráficos, mapas, matérias de jornal e várias imagens de documentários. Estão claros ali os desmandos chancelados pelos governos que tiravam os indígenas do local, e um povo que sempre insistiu em voltar às suas terras, o local onde seus antepassados foram enterrados.

Com a história da terra bem determinada e um retrato interessante da aldeia do Mato Grosso do Sul, o documentário expõe o outro lado da questão. Como tudo é definido em gabinetes e sessões políticas, de lá vem também a participação do homem branco eleito na questão, do latifundiário que entende que aquela terra é dele. Depoimentos absurdos e mesquinhos se contrapõe aos de quem perdeu a sua terra e insiste em lutar contra isso, assim como a imagens de lamentações pela morte de membros da tribo.

A importância de Martírio é urgente, fundamental. Para a conscientização da situação e para o conhecimento da injustiça que impera naquela realidade. É aqui, é Brasil, mas ninguém sabe muito bem o que, como e quando acontece. O filme vai fazer com que se saiba.

Mas não vai ser uma experiência fácil. Ela virá fortemente marcada pelo sentimento de impotência, pela constatação da própria ignorância, pela descrença na raça humana. São 160 minutos de muitas informações, histórias e absurdos. Duas horas e 40 minutos de pancadas na cara.

Martírio é o segundo filme da trilogia iniciada com Corumbiara por Vincent Carelli. Ele será distribuído em comunidades indígenas e estará disponível em breve na internet. Não deixem de assistir.

Um Grande Momento:
Atropelamentos.

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