Crítica | Festival

Marvelous and the Black Hole

Simplicidade que se deseja

(Marvelous and the Black Hole, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Kate Tsang
  • Roteiro: Kate Tsang
  • Elenco: Miya Cech, Rhea Perlman, Leonardo Nam, Kannon, Paulina Lule, Lauren Knutti, Aris Alvarado, Raymond McAnally, Keith Powell, Beth Hall
  • Duração: 81 minutos

Quando a gente volta a Barthes, encontra o trauma naquele lugar de impossibilidade verbal, descodificado. Tateando a linguagem possível, aquela experiência é algo que existe entre o ser e o signo, quer ter sentido, mas não supera a nebulosa significação. Daí se pode partir para um sem número de representações. Pensar em Barthes e em alegorias diversas para falar de traumas foi algo que algo estimulado pela experiência deste ano em Sundance, que trouxe também filmes como Mayday e The Blazing World, mas vai parecer um resgate teórico exagerado para falar do despretensioso Marvelous and the Black Hole.

Mas teorias intrincadas falam daquilo que é mais básico do ser humano, fazer o quê. Típico filme infantojuvenil, o longa dirigido por Kate Tsang fala da mais confusa fase da nossa existência. Aquela em que não somos velhos o suficiente para sermos adolescentes e nem novos o bastante para sermos crianças. É nesse limbo da vida que se encontra Sammy, uma menina já cheia de dores para superar, com um luto insuperado da mãe, e outras tantas ainda em estado de reconhecimento, com o novo relacionamento do pai.

Entre o cotidiano em família, quando divide o espaço com o pai que não sabe o que fazer com ela e uma irmã que não tem muito interesse, e as atividades que é obrigada a fazer para se enquadrar, com pessoas completamente aleatórias, Sammy quer chamar a atenção, reforçando características típicas da idade e de um momento tão particular. Mas, como na vida, vai descobrindo como as coisas funcionam, ou podem funcionar.

Marvelous and the Black Hole

Tsang vai construindo sua história em duas linhas: a desse realismo banal e facilmente identificável, e a do fantástico alegórico, com inserções em preto e branco onde o trauma vai encontrando representações no universo mágico, cheio de referências infantis, que toma conta da vida da menina quando ela deixa que Margot, uma senhora ilusionista entre em sua vida. O roteiro de Marvelous and the Black Hole, assinado pela diretora, é bastante simples, mas encontra força justamente nessa simplicidade, no tirar o peso das coisas e levar tudo para uma estrutura em que se embarca tão fácil.

A dupla, vivida por Miya Cech, de Meu Eterno Talvez, e Rhea Perlman, de Matilda, tem uma participação importante nessa ligação do público com a obra, já que, além de todo o carisma que emprestam a suas personagens, têm uma ótima química em cena. Há muita cumplicidade entre ambas e uma admiração mútua que torna as cenas gostosas de serem acompanhadas. No fundo, Marvelous and the Black Hole é um filme assim, que a gente gosta de assistir, com personas interessantes que a gente quer ver chegarem a algum outro lugar.

Claro que o longa não é aquele coming-of-age super elaborado que vai falar de maneira profunda e arrastada dos traumas e nem aquela tradicional comédia indie que vai pesar a mão no drama em algum ponto de maneira irreversível. Essa nunca foi a intenção de Marvelous and the Black Hole e ele em nenhum momento deu a entender isso, pelo contrário, sempre foi muito sincero com suas intenções. É um filme família, que fala de coisas complexas — e levam a gente a Barthes — de maneira simples e até banal e, assim, chega onde devia.

Um grande momento
Cortada em dois

[Sundance Film Festival 2021]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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