Histórias sobre imigração costumam ser construídas a partir de grandes acontecimentos, como a travessia da fronteira, a chegada a um novo país, as dificuldades da adaptação. O documentário Mexicanamerican, de Eddie Sánchez, tem todos esses elementos, mas encontra seu diferencial em outro lugar. O filme se interessa pela forma como essas experiências permanecem dentro das famílias, atravessando gerações e moldando a identidade de quem cresceu entre dois mundos.
Em um longa que não deixa de ser um “filme de churrasco”, aqueles personalíssimos e familiares, o uso de material de arquivo chama a atenção. São VHS domésticos gravados ao longo de anos que registram aniversários, brincadeiras, reuniões familiares e pequenos acontecimentos cotidianos, mas fogem da literalidade. Mesmo quando reconfiguradas, aquelas filmagens, aparentemente comuns, ajudam a preservar vínculos entre pessoas separadas pela fronteira e transformam a memória em algo físico, capaz de sobreviver ao tempo, às mudanças de país e às distâncias.
Sánchez conhece bem o material que tem em mãos e, mesmo conectado a cada uma das imagens, se afasta da simples ilustração. Ele mistura registros e os ressignifica, transformando cenas banais e dando a elas novos significados. É o que acontece, por exemplo, quando uma sequência dentro de um briquedo infantil vira uma alegoria para a travessia por meio de rotas clandestinas que cruzam o deserto. Essas escolhas produzem associações inesperadas, onde fatos históricos – e todos os conceitos e preconceitos – se transformam em memória familiar.
Mexicanamerican não está preocupado apenas com a experiência da imigração, mas com aquilo que ela produz nas gerações seguintes. A busca por pertencimento atravessa o filme, com personagens que carregam a herança mexicana enquanto vivem nos Estados Unidos, ocupando um espaço intermediário que nunca parece completamente resolvido. A pergunta sobre quem se é acaba inevitavelmente ligada à pergunta sobre de onde se veio.
Ao recuperar as histórias da própria família, Sánchez também se aproxima das perdas que acompanham qualquer deslocamento. Migrar significa buscar oportunidades, mas também deixar pessoas, lugares, hábitos e formas de vida para trás. Mexicanamerican compreende que essas ausências continuam presentes muito tempo depois da travessia. Elas reaparecem nas fotografias guardadas, nas fitas antigas, nas histórias repetidas durante décadas e nos esforços para transmitir uma memória que corre o risco de desaparecer.
Há momentos, porém, em que o filme se alinha mais do que o necessário a certas ideias e conclusões sobre identidade, tornando alguns de seus caminhos interpretativos previsíveis. A proximidade com o próprio discurso reduz parte da complexidade que as imagens reelaboradas e memórias evocadas poderiam alcançar.
Por isso, o filme encontra sua maior força nos pequenos gestos de preservação e nas releituras possíveis. Entre registros domésticos desgastados pelo tempo e lembranças compartilhadas por diferentes gerações, Mexicanamerican constrói um retrato delicado de pessoas tentando manter vivo um sentimento de pertencimento que atravessa fronteiras, línguas e décadas de distância.
Um grande momento
O brinquedo


