Crítica | Festival

Miami-Cuba

(Miami-Cuba, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Caroline Oliveira
  • Roteiro: Caroline Oliveira
  • Duração: 94 minutos

Miami-Cuba é um filme de derivas, seja no literal vagar ou na gíria da conversa. O longa fala de um movimento que muitas cidades litorâneas brasileiras conhecem: o abandono dos centros históricos e a verticalização da orla. É possível enxergar um pouco do muito, mas se olha mesmo para o específico, João Pessoa, do Centro ao Altiplano. Quem faz a jornada, e convida a acompanhá-la, é a pessoense Caroline Oliveira.

Esse filme é um anseio profundo de fabular, de dar força a uma cartografia afetiva que reside no corpo, nos encontros, na caminhada.

Depois de pedir licença aos orixás e de buscar seu marco zero nessa transformação verticalizante, o Dezoito, e ali se instalar, a documentarista sai à procura de sua cidade e da cidade dos outros, criando um tecido de olhares que ora se contrapõem, ora se complementam. O Centro Histórico aparece em destaque, como um lugar de performance, discurso, luta e ocupação.

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Artistas, ambulantes, militantes, amigos, passantes e nativos falam sobre João Pessoa e sua relação com o espaço; do embate entre passado e presente, descaso, fuga do centro, especulação imobiliária, gentrificação, eles expõem questões sociais e políticas. De Cuba a Miami, Caroline Oliveira traça o caminho de uma modernidade que descaracteriza, afasta e oprime.

Miami-Cuba é um retrato apaixonado e que consegue captar a essência de uma cidade, com sua multiplicidade de encontros, rostos e crenças. Com uma montagem que remete à aleatoriedade, o documentário traz essa verdade urbana desorganizada e casual. E, como se é impossível fugir do viés — Oliveira não disse que tentaria — a Cuba tem muito mais potência e tempo de tela.

O Altiplano, ou a Miami daqui, porém, aparece em momentos chave: no êxodo reverso, na ocupação política ou numa melancólica lembrança de casa da avó. E a dicotomia, que se vê um pouco prejudicada pela ausência de contradições, se fortalece novamente, dando fôlego ao longa.

Em sua deriva emocional e política, Miami-Cuba alcança o afeto pela cidade, desperta esse sentir por João Pessoa — ou Parahyba para os contestadores — até nos que não são da cidade, e faz entender o voltar da errante Oliveira sempre ao mesmo ponto. Um filme que mais do que olhar, consegue, com sua costura, recriar a vivência.

Um grande momento
Ednamay

[16º Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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