Crítica | CinemaDestaque

Mirador

É só mais um Silva…

(Mirador, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Bruno Costa
  • Roteiro: William Biagioli, Bruno Costa
  • Elenco: Edilson Silva, Maria Luiza Costa, Stephanie Fernandes, Luiz Pazello, Lea Albuquerque, Victor Haygert, Jordan Machado, Rafaelle Becker
  • Duração: 94 minutos

Não há o que falar a respeito da sobrecarga que homens enfrentam no mercado de trabalho, ao misturar-se suas obrigações com seus sonhos pessoais porque, estatisticamente, os homens realizam o que querem realizar. Cabe à mulher abdicar de algumas muitas questões para que encaixem-se, em sua realidade, as muitas camadas que a levam para além de uma operária padrão. Mirador, estreia desta semana nos cinemas, imagina um jogo diferente: e se a mulher, tal quais vários homens, decidisse que sua vida era muito mais do que ser mãe, e simplesmente fosse embora? Essa temática nos remete ao setentista Kramer vs. Kramer, mas aqui, no Brasil de 2022, muita coisa mudou. E o Dustin Hoffman de outrora tem algumas novas resoluções a tomar, para que todo um esquema possa surgir e premiar um possível vencedor. 

Bruno Costa é ator e diretor, e aqui estreia em longas com uma visão ultra naturalista sobre a paternidade, dessas mais para compulsórias. Existe uma vontade genuína de sua autoria em tirar o glamour das nomenclaturas e das funções – é tudo muito menos oficializado do que pressupomos à primeira vista. Esse interesse da produção, em desmistificar o estado das coisas para torná-los críveis se faz claro quando seus olhos não estão direcionados para o julgamento; a vida de Maycon é como é, não tem muita chance de realizar diferente. Quando o filme investiga seus espaços, dá também chance de que conheçamos seus habitantes, muito mais do que por meio de suas falas, e os definamos por suas ações e lugares, mais do que por suas vozes. 

O roteiro tenta sempre apresentar limites à obra, contradições e suspeitas, e isso a cobre muito bem de seções. Mas são as rasteiras que importam, quando o medo do espectador acaba sendo substituído por falso julgamento, papéis sociais (negativos ou não) que nem sempre se realizam enquanto a estrutura convencional nos limitou a observar. Na maior parte das vezes, a vida se apresenta acinzentada, com os limites entre branco e preto difusos; algumas dessas vezes, esse cinza se deixa levar por um tradicionalismo de questão, que não é melhor ou pior, simplesmente é. Mirador não deseja chocar o público por excesso de dramaturgia, com ênfase em acontecimentos super expostos; não, o caminho das pedras, em alguns momentos, é o mais comum e prosaico possível. 

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Mirador
Ana Málaga

Maycon não difere muito das mulheres que já foram retratadas pela dramaturgia como provedoras e, em clichê, batalhadoras. Ele é ajudante de cozinha, carregador e faz-tudo, mas seu sonho está no boxe. Eventualmente, mais uma ocupação fará parte do currículo de Maycon, que apenas está presente nas funções, mas desloca sua alma exclusivamente ao esporte. É uma jornada ininterrupta que muitas esposas vivem, sem serem premiadas por isso; quando um homem se coloca em lugar análogo, o filme não se lamuria por ele, porque faz parte de uma realidade muito convencional, só que em outra cartela de gênero. E o filme também acerta ao não tentar caricaturizar a paternidade, envolvendo o protagonista em situações cômicas; Maycon parece preparado para algo que não pediu, mas que será encarado com alguma sobriedade. 

A experiência de Edilson Silva (de Bacurau, O Porteiro do Dia e outras participações em curtas e longas) é fundamental para forrar Mirador de uma carga muito presente do naturalismo. O ator pernambucano exala carisma, mas principalmente uma forte carga de identificação com as histórias que ajuda a contar, sempre repleto de material humano em cena. Nunca esteve em momentos muito expansivos em cena, porque seu forte é estar absolutamente livre de qualquer exibicionismo dramático, por isso funciona tão bem sua química com a pequenina Maria Luiza da Costa em cena, e praticamente todos os adultos. O filme, acima de tudo, entende que Silva está em ponto-chave da carreira, e oferece a ele um papel que faz todos os seus predicados realçar, a ponto de acabar por tornar sua trajetória tão intensa quanto frugal, só mais um dia na vida desse homem. 

O trabalho principal de seu diretor aqui então foi de deixar suas notas longe da agudeza, e um clima constantemente reconhecível em cena. Contundente ao narrar uma paternidade tão possível em meio a uma seara de impossibilidades, Mirador até conta com algumas explosões, mas elas também se mostram presentes somente quando extremamente plausível. Em narrativa próxima a textura documental, isso também define nossa identificação com a trama, que ao mesmo tempo é profundamente universal. 

Um grande momento
Maycon e Malu no banho

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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