Crítica | Festival

Mudança

Para ficar tudo diferente, mas não agora

(Mudança, BRA, 2020)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Fabiano de Souza
  • Roteiro: Fabiano de Souza
  • Elenco: Gustavo Machado, Guili Arenzon, Rosanne Mulholland, Fernando Alves Pinto, Lui Strassburger, João Pedro Prates, Nelson Diniz, Roberto Oliveira, Maria Carolina Ribeiro, Pâmela Machado
  • Duração: 88 minutos
  • Nota:

Fabiano de Souza está em seu terceiro longa metragem e, embora suas produções anteriores não tenham alcançado um público mais amplo, esse novo Mudança, competição da 24ª edição do Cine PE, provoca no espectador um súbito interesse por sua obra pregressa. O que vemos em tela é sintoma de maturidade de quem realmente já tem 20 anos de carreira e que, mediante esse filme especificamente, tem muita nostalgia pra despejar no espectador, vide o tanto de informação que jorra da produção, temporal, imagética e afetiva, que amarra todos os elementos em uma narrativa que precisa do tempo dela para se enraizar, crescer e mostrar suas armas.

O diretor e roteirista foi clínico no batismo de sua obra, já que em uma palavrinha simples de sete letras estão agrupadas diversas ressignificações da mesma. Conforme a cartela que o abre, estamos falando de um período-chave na política brasileira, mas também de um tradicional coming of age geracional, de um processo interno de um segundo protagonista impelido a uma decisão (que nunca é somente pessoal, mas ética e simbólica), também de uma diferença geográfica que abra as possibilidades para os dois personagens principais,ou seja, a mudança está disposta em cada elemento narrativo da produção, ampliando o leque metafórico.

Em pelo menos dois momentos, a fotografia de Bruno Polidoro (responsável pela impressionante luz de O Que Pode um Corpo?, também na competição do Cine PE) convida seus protagonistas a serem mais claros em relação aos seus desejos, como se a luz do sol pudesse iluminar tão fortemente suas entranhas a ponto de cegar – um pedido simbólico pela realização que pulsa interiormente em ambos. O que ambos farão com suas ‘férias particulares’ à realidade é encruzilhar ainda mais essa pulsação interna que os colocará à beira de abismos muito diferentes entre si, mas que pode fazer ambos caírem em ‘tentação’… sem volta?

O trabalho de Polidoro é não apenas peça integrante e fundamental para narrar imageticamente a intensidade, o peso dramático e a textura dos sentimentos de cada cena, como também engrandece o perfil dos personagens com as propostas de foco e luminosidade que joga sobre eles, um trabalho conjunto que refina os trabalhos já meticulosos de Gustavo Machado e Guili Arenzon. Assim como a montagem de Milton do Prado não apenas define cadência ao filme, como o nutre de elegância e produz um timing de planos exemplar, vide a cena do futebol no apartamento.

Ambos vão e voltam, sabem da necessidade real que representam um ao outro. Ser pai e filho é mais do que uma nomenclatura familiar, é um porto seguro que, no espaço-tempo narrativo, os reconecta ao que eles conhecem e os protege do desconhecido. A viagem que ambos empreendem para longe da mãe/mulher é acordada ao final como uma espécie de retiro espiritual de si mesmos, quando poderão ser qualquer outra coisa que não os que estão impingidos a ser, pela vida, pela sociedade, pelo sistema, pelo padrão. Caio e Reinaldo se esbarram enquanto durante um dia repassam o futuro possível, que significa manutenção para um e crescimento para o outro. Há um tempo certo para sair do ninho cômodo que criamos para nós?

Mudança (RS)

Enquanto o flerte do pai é ideológico, no que poderia se desdobrar para uma tradicional crise da meia idade masculina, o filho está na hora de flertar. E flerta. Souza não nos ajuda e nem ao personagem – ele ajuda ao próprio filme, sem definir suas inclinações ou sublinhar sua inadequação. A quem Caio olhava na cabine do salva-vidas? Porque Caio é o elemento do meio na belíssima corrida pela rua com os desajustados que o acolheram – e pelo qual ele se deixa seduzir? Porque Vera faz aquele determinado pedido, e não vemos o resultado do mesmo? Não precisamos. Mudança é o título do filme – tempo de mudar, de florescer, de aflorar o que tiver de ser. E eventualmente será.

Ao entregar uma premissa já testada anteriormente, Mudança liberta seu autor para aportar sua sensibilidade no jogo cênico-narrativo, abrilhantando sua produção com encontros e desencontros que não precisam necessariamente serem decididos no hoje – afinal, o Brasil é o país do futuro, não é? O brilho irônico com que pinta seu final feliz, à sombra da faixa com a frase-clichê, é a demonstração de que Souza prevê os raios e trovões que os raios solares não deixam ainda antever, e que sorriso nenhum dura para sempre. O melhor é aguardar o futuro para seguir o rumo, que só parece definido pelo idílio que vivemos na juventude – somos tão jovens… assinado, Caio e Brasil.

Um grande momento
“Romance Ideal”

[24º Cine PE – Festival de Audiovisual]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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