Crítica | Festival

Los conductos

Perguntas não vão lhe mostrar

(Los conductos, FRA, COL, BRA, 2020)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Camilo Restrepo
  • Roteiro: Camilo Restrepo
  • Elenco: Luis Felipe Lozano, Fernando Úsaga Higuíta
  • Duração: 70 minutos
  • Nota:

Nos ano 1990, o artista digital Leonel Moura lançou um pequeno livro chamado “Os Homens Lixo”, onde falava sobre uma nova condição, os seres descritos não tinham a ver com aparência, mas com o modo como eram tratados pela sociedade, como detritos do sistema, rejeitados, relegados. Los conductos me lembrou muito do livro. Pinky é como o homem lixo classificado por Moura que faz de um lugar abandonado o seu subterrâneo, seu meio de se esconder de um mundo que o rejeita. O ambiente que o cerca traz as marcas da desigualdade social, da mão de obra barata, do narcotráfico. A Colômbia da exclusão, não que não pudesse ser outro país da América Latina.

Em seu primeiro longa-metragem, Camilo Restrepo não está interessado em responder, mas em levantar questionamentos, não é à toa que a luz está vez por outra aparece no centro do quadro, centralizada como a lua, como o farol da moto que o protagonista dirige, como um novelo de cobre ou disperso como fagulhas do fogo, a iluminação da cidade ao longe ou os poste de uma uma rua. É seguindo essa luz que Pinky vai trilhando caminhos por lugares desconexos. A falta de lógica visual, que sai da rua ao barraco passado pela fábrica de silk e por vários outros lugares desenha uma Medellín variada e confusa em si mesmo.

Los conductos

O que se vê intriga, assim como aquilo que se escuta de Pinky. Em suas palavras, ele mistura símbolos que trazem a mitologia cristã do salvador, já anteriormente apropriada e que se aplica a outras estruturas. Para o bem e para mal. O pai que tem seus seguidores, como Jesus e seus profetas, como Escobar e seus parceiros, como Uribe e seus correligionários, como qualquer patrão e seus sócios. O mundo que pode ser dominado, já que é meu. A filosofia vai longe em seus devaneios sobre o poder, Pinky encontra inclusive um contraponto físico, a retaliação personificada.

Sem nenhum ideal, ele não poderia ser senão um assassino que matou para matar. Mas esse bandido tinha a cara de não ser. Quer dizer, havia um sopro de limpeza em seu cadáver, de limpeza. Não tenho dúvidas de que talvez sob outro céu que não fosse o céu sinistro de sua pátria, esse bandido pudesse ter sido um missionário, ou um verdadeiro revolucionário.

Elegía à retaliação, Gonzalo Arango
Los conductos

Se o começo do filme direcionava a óbvia associação com do título com dutos de um subterrâneo por onde o protagonista rastejava, Restrepo já nos puxa pelo contrapé e mostra que, na verdade, são os múltiplos caminhos da verdade, da violência, do poder e da justiça. São os múltiplos caminhos de uma cidade e suas várias diferenças sociais, os caminhos morais de uma sociedade. Dutos que se entrelaçam, convergem, chocam. Em determinado momento do filme, Pinky fala sobre buracos, buracos enormes que cabem carros, quem cabem cidades inteiras, e voltamos ao começo do filme.

Assim que entramos em Los conductos com o “homem lixo” de Restrepo já sabemos que não vamos ter uma viagem fácil, vai ser uma jornada turbulenta da qual vamos sair atordoados. Em seu frenesi urbano, ele nos leva para conhecer uma Medellín contraditória e excludente, cheia de luz, mas ao mesmo tempo tão tenebrosa. Mas não é a cidade, é o homem e sobre ele, não há definição, só incertezas

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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