Crítica | Outras metragens

Vigia – Um Olhar para a Morte

Rebobinando memórias cinéfilas

(Vigia - Um Olhar para a Morte, BRA, 2019)

  • Gênero: Ficção
  • Direção: Victor Marinho
  • Roteiro: Victor Marinho
  • Elenco: Átila Leal, Jade Ianuzzi, Guiga Stadler, Maria Rezende, Thiago Lucas e Jairo Cunha
  • Duração: 22 minutos
  • Nota:

O nome do curta, ou melhor, seu subtítulo, já adianta o que virá pela frente: Vigia — Um Olhar para Morte, mesmo quando lido mentalmente já puxa da memória aquele tradicional “versão brasileira” das dublagens televisivas que tanto marcaram os anos 1980 até meados de 1990, e nem precisava, porque isso vai estar no filme. Depois de uma abertura super ambientada na época com, primeiro uma máquina de vídeo-cassete, depois a música, a produção, a tal e uma colagem de imagens do protagonista Salvador e Rocky Balboa.

O filme é todo nostalgia para aqueles que viveram o auge das locadoras de vídeo e suas estantes apertadas, abarrotadas de fitas de vídeo; balconistas que pareciam não fazer mais nada da vida a não ser ver filmes e o auge do cinema testosterona com ídolos como Charles Bronson e o seu desejo de matar, Clint Eastwood e sua Magnum 44, Sylvester Stallone e sua faca dentada, Jean-Claude Van Damme e sua abertura negativa ou o maior Chuck Norris. Todos também ícones do vigia noturno que protagoniza o curta.

Claramente mais preocupado em divertir, o que não é demérito nenhum, Vigia brinca com os próprios filmes que homenageia e não se preocupa muito com precisão, nem temporal – embora aqui se perceba um esforço – nem de linearidade narrativa. Há elementos que se desviam do caminho original dos filmes de ação, mas resvalam no tema noventista, como a abordagem grunge com a personagem feminina da locadora ou do cinema comunitário como o filme que eles mesmos fazem (tem um podcast do Cenas sobre os dois filmes, por acaso). Outros tentam tocar em temas sociais e estão meio estranhos no ninho.

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Vigia - Um Olhar para a Morte

Voltando às armas e explosões, muitas referências que relembram os filmes de ação que marcaram a época e a solidão de Salvador. E é curioso rever o filme hoje em dia. Exibido pela primeira vez na último Panorama Internacional Coisa de Cinema, agora, no 24º Cine PE, em meio a uma pandemia que nos fez ficar presos dentro de casa, de certo modo, como ele dentro de um mundo extremamente restrito, acompanhando um festival pela tela da televisão, a aproximação com o curta é outra.

A loucura que vai tomando Salvador, que começa a se ver na tela, mais ou menos tomado pela violência a que se expõe diariamente; as palavras da invisibilidade e da posição social ditas pelo colega que se repetem em sua cabeça. Victor Marinho põe pra fora anos e anos de tudo o que ele recebeu de informação cinéfila e diverte com suas muitas referências encontrando boas opções visuais e a pegada divertida que estava procurando desde a escolha do título.

E é isso. Vigia — Um Olhar para a Morte quer divertir, quer entreter, quer homenagear. Consegue voltar no tempo e isso é um ponto positivo. Talvez seu maior pecado seja não definir um limite até onde ir e tentar colocar muita coisa em um curta só, fazendo com que falte liga em muitas das passagens, principalmente nas mais descoladas das cenas de ação, mas tem seus momentos e bem elaboradas esteticamente, como a cena com o carrinho de ferro (carrinho de ferro!!!) e na ansiedade possível do Papai Noel saxofonista.

Um grande momento
Um passeio pela luz

[24º Cine PE – Festival do Audiovisual]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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