Crítica | Festival

Adiós a la memoria

Colagens do passado

(Adiós a la memoria, ARG, 2020)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Nicolás Prividera
  • Roteiro: Nicolás Prividera
  • Duração: 90 minutos

Em um deserto há uma torre de pedra não muito alta, sem porta e sem janela. A única cela, em forma de círculo, tem uma mesa de madeira e um banco. Nessa sala, um homem parecido comigo escreve com letras que eu não consigo entender sobre um homem em uma cela circular que escreve um poema sobre um homem em uma cela circular… Assim entramos no universo de Adiós a la memoria, documentário de Nicolás Prividera sobre este elemento tão particular e tão universal.

Adiós a la memoria traça esse caminho, do indivíduo para o coletivo. Prividera usa imagens domésticas, recupera películas familiares, arquivos de seu pai e narra passagens de sua própria história. se coloca em cena, a si e a seu principal documentado, mistura momentos cotidianos, eventos, divaga, fala sobre uma vida já preenchida por memórias incompletas preenchidas por elementos que talvez não tenham existidos. Filmagens ou a visão em terceira pessoa das crianças? Os primeiros passos, animais domésticos, tudo vai se misturando num emaranhado de lembranças.

Adiós a la memoria

Lembranças que o próprio pai não é capaz mais de reconhecer nem mesmo quando vê. Se o lugar da memória já é estranho e confuso por si mesmo, em seu estado natural, em sua própria concepção, a sua não existência, ou o seu desaparecimento é ainda mais assombroso. O pai de Prividera, acometido pelo Alzheimer, não pode mais dizer-se perdido nesses recuerdos, ele está perdido no vazio. Mesmo diante das imagens, não consegue localizar-se. As palavras, colecionadas por anos, não fazem sentido. Os nomes tentam ser reconhecidos, mas não são.

É entre as imagens familiares desse passado desgastado que o cineasta fala da relação um dia perdida e do reencontro, justamente quando a memória tinha começado a abandonar o pai. Talvez nem tanto pelas memórias futuras, mas as que ele poderia deixar para trás. Em países sul-americanos todos sabemos, além de memórias familiares, todos sabemos quais são as memórias que não podem ser deixadas para trás. É quando Adiós a la memoria, que, apesar de tratar um tema comum a todos até então, torna-se ainda mais universal.

A capa de um jornal faz a transição: “Um país prisioneiro del pasado”. E Prividera explora o poder da imagem enquanto captura do tempo, contrapõe o presente e passado em imagens familiares de hoje e de antes, capturas digitais e capturas em películas. Compõe assim a sua história possível dentro da inviabilidade. A Argentina em sua transformação neoliberal, em seu golpe, em suas mortes, torturas e desaparecimentos, e em um caminho que parece buscar de novo o mesmo lugar. Eis aí, então, a prova de que esta é a mais importante das memórias que não pode ser deixadas para trás.

Prividera exagera na citação a pensadores, como de hábito, mas é extremamente cuidadoso no modo como amarra narração e imagens, embora traga algo tão pessoal, consegue fazer com que o escopo seja mais amplo que sua intimidade com o objeto em análise em grande parte de Adiós a la memoria. Talvez só vacile quando a mãe entre em cena e isso seja uma questão mais dolorida. Mas não deixa de ser uma belíssima abordagem sobre o que é, como ele diz, visitar essa “terra estrangeira” que é o passado e como é importante que o visitemos. Sempre.

Um grande momento
Filmes familiares são sempre felizes.

[35º Festival de Cine de Mar del Plata]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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