Crítica | Festival

Nós, Que Ficamos

A força de quem não foi

(Nós, Que Ficamos, BRA, 2020)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Eduardo Monteiro
  • Roteiro: Eduardo Monteiro, Gabriel Ramos e Maíra Lisboa
  • Duração: 71 minutos
  • Nota:

A dramaturgia e a vida real são obcecadas pela figura do imigrante, aquele personagem que sai em busca de um lugar melhor pra si longe da própria terra. Enquanto esse tipo povoa as investigações, os debates, as obras literárias e cinematográficas, o que acontece com o homem que não se vai? Nós, que Ficamos, dirigido pelo estreante Eduardo Monteiro, parte dessa imagem não-explorada narrativamente para tentar compreender os seus motivos – ou ao menos os motivos desse grupo escolhido pelo diretor, diretamente do sertão de Pernambuco, em região cuja seca já completa uma década.

Explorados por políticos, poderosos locais, exploradores de minério mas principalmente assediados por empresas de energia eólica, que ergueram ao redor de Araripina um grande arsenal de moinhos através das terras já compradas, o que provoca uma paisagem no mínimo surreal, e que emoldura os primeiros minutos do filme ostensivamente, demarcando em imagens um padrão esdrúxulo que os moradores convivem diariamente, que representam a certeza de uma pressão psicológica onipresente; no meio dessa ambiência sugerindo o futuro, constitui-se a natureza selvagem que se recusa a abandonar suas raízes.

A ideia do diretor é interferir o mínimo possível no cotidiano local (em determinada cena, uma matriarca briga com um motoqueiro pelo barulho “que atrapalha a filmagem”), leia-se não apenas o cotidiano humano e controlado, como a natureza, os animais, todo o correr dos dias é preservado em uma tentativa de não reprimir o que é natural e diário. Como não há a gravação de áudio e vídeo concomitantes, o que acompanhamos são as tarefas de cada núcleo familiar em suas atmosferas particulares, de plantio, cuidado com animais e rebanhos e eventualmente seus discursos, em off.

O filme investe em flagrantes longos de beleza plástica inegável, provenientes de um trabalho fotográfico de Beto Martins (de A História da Eternidade), que “pinta” um filme com imagens espetaculares, mas que por conta da condução, só esticam sua duração sem agregar novos dados narrativos à produção, que acaba refém dessa plástica, ainda que seu resultado inebrie. O exemplo máximo dessa inadequação são os quase 10 minutos que o filme passa entre a preparação de um porco e posteriormente algumas galinhas, que acompanhamos com detalhes seus abatimentos. No meio desse momento, um dos monólogos mais pertinentes da produção (sobre o crescimento da população em detrimento à diminuição da terra) acaba perdendo espaço para as imagens.

Não há excesso de estrutura em Nós, que Ficamos, mas talvez excesso de duração. O escopo definido pela produção, sua intenção e sua provocação são bem escolhidos e o filme encanta em cada bloco por onde passeia, mas com alguma redundância em seus enfoques, o trabalho de Monteiro acaba se alargando para um longa-metragem. O espectador não se entedia com a beleza estética do trabalho, que é inegável, mas a repetição desse cotidiano, que se difere pouco de um núcleo para o outro, talvez traga um excesso que precisasse ser enxugado.

A força do material como um todo vem da união entre a qualidade dos depoimentos, que em sua pureza encanta e traduz a paixão pela terra e a certeza da escolha certa ao optar pelas raízes, com a explosão da poesia das imagens de Beto Martins e Monteiro, que conectam os espaços filmados com esse intenso apego à casa, em todas as suas definições.

Um grande momento
A construção da fogueira

[24º Cine PE – Festival do Audiovisual]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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