Crítica | Outras metragens

O Homem das Gavetas

Enchendo e perdendo gavetas

(O Homem das Gavetas, BRA, 2019)

  • Gênero: Animação
  • Direção: Duda Rodrigues
  • Roteiro: Duda Rodrigues
  • Duração: 9 minutos
  • Nota:

Antes de falar de O Homem das Gavetas, acho interessante contar que esse texto tinha partido para um lado completamente diferente. Apesar de ser primordialmente baseado nas imagens como elementos referenciais como neste, a espinha dorsal era outra. A história da arte de antes levava a uma elaboração apegada a teorias sociológicas, ao capital e a figuras literárias. Mas, após uma noite de sono, dois frames, dois únicos frames, mudaram toda a minha percepção – ou melhor, toda a minha interpretação – do filme.

O curta de Duda Rodrigues, animação em stop motion realizada graças a financiamento coletivo, faz um passeio pela história da arte. Seu homem de gavetas vazias, aquele que nos guia por esse caminho, abre espaço para interpretações várias, como a primeira que tive e outras que podem surgir dependendo das experiências de cada um. Gavetas têm um sentido muito marcado na psicologia e na arte, são espaços da memória, onde se guardam as lembranças boas ou ruins da vida. Era assim para Freud, era assim para Dali. A diretora quer unir essas duas linhas, mas se dedica principalmente à pintura. 

O Homem das Gavetas

As gavetas de nosso protagonista, que trazem justamente uma marca constante do pintor catalão, precisam ser preenchidas, e é por isso que é ele quem vai nos guiar por essa jornada surrealista pelo universo de artes que Rodrigues recorta e cola de maneira despojada que tem a cara de todos e, ao mesmo tempo, de nenhum também. Que se parecem com ele, em referências sutis e explícitas, e com ela, na transição habilidosa entre cores e técnicas de animação. A partida está lá na Belle Époque, no impressionismo de Monet, na única memória que ocupa algum espaço naquele corpo ainda carente de referências, como uma mãe que acalenta o seu rebento. 

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Mas há ainda uma influência primeira, assumida, mas ausente, como a relação paterna não vivida que reflete naquele espelho velasquiano que contrasta com as cores da memória enquadrada no porta-retrato e do quarto de Van Gogh onde tudo acabara de perder a cor. Essa passagem é de uma sutileza tão tocante que chega a arrepiar. Rodrigues fala de referências que transcendem o ponto ilustrado em tela. A representação pode variar, não é necessariamente o pai, a mãe, o ídolo, mas os símbolos são os mesmos. Influências, marcas, traumas, questões. E gavetas que se preenchem, aqui de referências visuais e estilísticas.

Com novos olhos, ele despenca para encher novas gavetas, agora se inebriando com o ouro de Klimt e as formas desobedientes de seu contemporâneo Picasso seja na instalação espacial ou na figura que remete ao negociador de almas. É sempre mais fácil encher as gavetas depois dele. “Money makes the world go round, you better get it”. E assim ele parte para uma mistura da alegria de Matisse, que traz as ausências lá de trás. O que se vê é agressivo e incomodamente irônico, não é bonito, não é prazeroso, mas devora. É necessário que o homem das gavetas passe por aquele ambiente e por aquela experiência para preencher seus vazios.

É importante para que ele chegue ao ser que encontra a si mesmo em um banquete que se dá no museu que leva o seu nome, centralizado na primeira sala do lugar que homenageia a sua obra. A diretora é ousada ao fazer isso. Como chegar a si mesmo? Como será abrir todas as suas gavetas e enxergar o seu eu criativo? Entre tantas referências, o que ficou? O que foi desprezado? O que foi transmutado? Muitas perguntas que a animação não faz a menor questão de responder, mais do que isso, instiga e deixa ao próprio homem das gavetas, o atira a um futuro abstrato que o reflete, literalmente, mas que também volta à origem. Um futuro onde ele também se reconhece. E o retorno ao passado que ele ainda não resolveu. Freud explica…

Fica aqui o aviso: tudo o que aqui foi visto, reconhecido e interpretado é intransferível. Uma pessoa vai ver um filme completamente diferente da outra. Aliás, uma mesma pessoa pode ver um filme completamente diferente dela mesma.

(Particularmente, muito do que eu vi, vejo e verei de pintura, escultura e muito de arte foi junto ao artista Marcelo Camara, que é meu parceiro de viagens e aventuras nesse mundo de descobertas pictóricas e, aqui, me acompanhou mais uma vez)

Um grande momento
Se vendo no hoje?

[24º Cine PE – Festival do Audiovisual]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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