Crítica | Festival

Nada de Bom Acontece Depois dos 30

A vida é jovem

(Nada de Bom Acontece Depois dos 30, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ficção
  • Direção: Lucas Vasconcelos
  • Roteiro: Lucas Vasconcelos
  • Elenco: Pedro Nercessian, Nina Rosa, Rhuan Santos, Paula Furtado, Camila Rocha, Kaique Bastos
  • Duração: 12 minutos

Deve ter algum feitiço, algum talento sobre humano escondido por trás de quem realize algo tão sucinto, em apenas 12 minutos contar uma história com começo, meio e fim, coerência, assertividade e ainda deixar um sabor plus no espectador. ‘Nada de Bom Acontece Depois dos 30’ é o novo filme de Lucas Vasconcelos, que com alguns curtas anteriores já no currículo, apesar de nem ter chegado aos tais 30 do seu título, mas que aqui faz o clichê acontecer, e amadurece como realizador a ponto de provocar um enevoamento na sua obra pregressa; ele existe a partir daqui, e daqui pra frente estaremos de olho em Lucas. Isso se chama responsabilidade autoral. 

Passada a pressão que jogo em cima de seu autor, a maturidade o levou a construir tal pequena grande obra, que se aproveita de muitas das coisas que provavelmente ele mesmo assistiu (e nós também) para criar uma distopia absolutamente lacunar e muito feliz por ser desse jeito, tão francamente aberta. Há uma espécie de claro prazer no roteiro do próprio Vasconcelos em se perceber detentor de detalhes que jamais serão esclarecidos com exatidão, e o espectador mais exigente também embarca nas possibilidades em suspenso. A utilização dessa ideia remota coletiva resulta em uma experiência cheia de substância.

O que tem de verdadeiramente novo em ‘Nada de Bom Acontece Depois dos 30’ está implícito em seu próprio título, a ideia de que o mundo é feito exclusivamente para as pessoas jovens, como todo tipo de marketing, arte, e material audiovisual é vendido hoje. Todo conceito busca um lugar para que seu produto (sim, porque tudo é um produto hoje, do cinema à literatura, passando por novelas, música, teatro…) possa ser vendável, e o consumo é um bem dado exclusivamente a uma fatia de público cada vez mais jovem, vide as cores, a vibração, o ritmo e a efervescência de tudo que consumimos, e não apenas hoje.

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Essa é uma discussão que, por querer ou sem, Vasconcelos aporta em momento propício. Por causa dos efeitos da pandemia de covid-19, está sendo discutido nesse exato momento os motivos pelo qual a fatia de público dos 35 aos 55 ainda não voltaram a consumir cinema, provocando o fracasso de títulos como ‘O Último Duelo’, ‘Respect’ e ‘Cry Macho’. A juventude, ao contrário, correu em massa para conferir os blockbusters vazios de franquias intermináveis, enquanto o entretenimento adulto parece fadado às plataformas de streaming. Nessa conjuntura, um filme que celebra o ato de estar vivo como uma benesse concedida apenas a quem está abaixo dos 30 é uma porta de entrada para revermos as vantagens de ser inexperiente; quais são mesmo?

Filmando sua alegoria com muita elegância, Vasconcelos tem dois trunfos ao seu lado: o protagonismo de Pedro Nercessian (de ‘Canastra Suja’), mais uma vez mostrando que não é absorvido pelo nosso cinema, e injustamente, com uma performance cuja frieza aparente não permite esconder o desejo de liberdade; e a fotografia de Pedro Gabriel Miziara, um nome para ser guardado, que consegue transitar muito bem entre a artificialidade dos espaços controlados, com luzes quentes e enquadramentos abstratos, e o magnífico plano final, permitindo que o desconhecido que o personagem de Pedro abrace seja também reconhecido como libertário, com a vivacidade do verde e o abandono posterior do foco.

‘Nada de Bom Acontece Depois dos 30’ até pode ter nascido como um exercício de gênero que emula muito da filmografia melancólica produzida nas últimas décadas (como ‘Gattaca’ e ‘O Preço do Amanhã’), mas acaba por se tornar uma ferramenta de discussão para a sociedade do hoje, que privilegia a efusividade da juventude e destrói a História. Um acerto de recheio do olhar de Vasconcelos e Miziara, dentro de um universo prestes a cobrar da juventude por uma experiência que ainda não foi adquirida. Que caras tão jovens tenham compreendido essa mola social e se disposto a reverberá-la, é uma prova que a maturidade não tem hora pra chegar. 

Um grande momento

A verdade de Noah o despe


O crítico viajou ao 25° Cine PE – Festival Audiovisual a convite do evento.

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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