Crítica | CinemaDestaque

Não Vamos Pagar Nada

A TV vai ao cinema, o teatro vai ao cinema

(Não Vamos Pagar Nada, BRA, 2020)

  • Gênero: Comédia
  • Direção: João Fonseca
  • Roteiro: Renato Fagundes
  • Elenco: Samantha Schmütz, Fernando Caruso, Flavio Bauraqui, Criolo, Edmilson Filho, Leandro Soares, Flavia Reis, Paulinho Serra
  • Duração: 87 minutos
  • Nota:

João Fonseca, diretor de inúmeros episódios das sitcoms Vai que Cola e A Vila, chega aos cinemas praticamente em casa, ou seja, transformando imagens televisivas em pretensa linguagem cinematográfica. Não Vamos Pagar Nada, sua estreia nas telonas, acabou batendo de frente com a pandemia COVID-19 e teve que se conformar a essa lançamento híbrido, misto de cinemas e drive-in nesta quinta, e telinhas do streaming Telecine a partir da semana que vem; aparentemente o último canal parece ser o que suporta mais suas pretensões artísticas e o máximo até onde seu escopo alcança, um lugar distante do que até mesmo os blockbusters de Paulo Gustavo hoje já se afastaram.

Adaptado de uma peça do italiano vencedor do Nobel de literatura Dario Fo, a base da trama de Não Vamos Pagar Nada não só é muito atual e instigante, como muito inteligente e repleta de possibilidades, como no reflexo da nossa realidade atual, apesar de ter sido escrita originalmente em 1974 – a primeira montagem brasileira data de 1981, com Gianfrancesco Guarnieri, Herson Capri, Bete Mendes e Regina Viana. Considerada um de seus maiores sucessos, o texto cai como uma luva na embocadura de um elenco talentoso como o visto aqui, mas carece de estrutura cinematográfica para se fazer relevante enquanto peça de cinema.

Não Vamos Pagar Nada

Mas Fonseca e seu roteirista Renato Fagundes (que escreve para lados tão díspares quanto Modo Avião e Sob Pressão) não parecem muito interessados em ampliar o escopo imagético do material, que poderia e deveria ter perdido a ambiência teatral. O resultado é um filme que não só aceita suas origens como quase tem orgulho das mesmas, se encerrando em duas casas quase que exclusivamente, com marcações muito óbvias de câmera e movimentação de atores, e retirando qualquer textura possível que pudesse alargar as possibilidades de seu cinema – que com isso acaba perdendo exatamente as características cinematográficas.

Como seu arranjo não se comunica com a linguagem esperada de um produto para a tela grande (é só pegar, por exemplo, o caso da adaptação para as telas de Vai que Cola, onde Cesar Rodrigues enche sua lente com imagens amplas, um colorido vivo e uma movimentação imagética requintada), o filme que chega em multiplataformas essa semana perde a oportunidade de rebuscar um texto repleto de camadas políticas, sociais e humanas, se encarcerando em uma ideia mais popularesca que popular, como se seu público-alvo não merecesse um produto potencialmente melhor, e cuja origem teatral pode servir de justificativa para tais escolhas.

Não Vamos Pagar Nada

Como esperado, um filme baseado em premiada peça de teatro não apenas contém diálogos de alta qualidade como principalmente precisa de atores que consigam mergulhar com naturalidade naquele universo, que interajam entre si com segurança e que comportem familiaridade ao projeto como um todo. Pela proximidade que tem com a maioria desses atores, Fonseca os conduz com hábil sensibilidade, o que garante ao menos a Não Vamos Pagar Nada um material humano de qualidade inegável; Samantha Schmutz, Edmilson Filho, Flavia Reis e Leandro Soares são equipe unida em fina sintonia, disparando os diálogos de Fo com muita propriedade, todos em uníssono de qualidade; Flávio Bauraqui é auxílio luxuoso ao quadro geral.

Esse elenco, aliado a esse texto ágil e muito espirituoso, conseguem divertir muito, o que, no fim das contas, é a função de produções como Não Vamos Pagar Nada; os risos são garantidos, a simpatia também e a análise política está disponível, em entrelinhas que aproximam a Itália dos anos 70 com o Brasil de 2020 de maneira certeira. É uma pena que tantos acertos humanos não suplantem a ausência de verniz cinematográfico, que não está presente em um projeto que merecia uma atenção especial para se elevar ao lugar que deveria alcançar.

Um grande momento
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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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