(Navios de Terra, BRA, 2017)
Drama
Direção: Simone Cortezão
Elenco: Rômulo Braga, Shima, José Fontinelle, Gerson Rodrigues, Ruby Wang, George Chen, Wu Fu Jong
Roteiro: Simone Cortezão
Duração: 70 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

Tudo pode virar cinema. Navios de Terra é a maior prova disso. O filme parte de uma pesquisa muito específica, sobre a influência da extração mineral na alteração da paisagem. O Brasil exporta hoje mais de 300 milhões de toneladas de minério de ferro por ano e, apenas no primeiro semestre de 2017, alcançou a soma de mais de US$ 11 milhões. De todo o minério exportado, 55% é destinado à China. É sobre a relação entre esses dois países que o longa-metragem encontra um lugar para se estabelecer.

O filme mineiro, ao falar de extrativismo e deterioração da natureza, cita ainda outra tragédia atual, a do rompimento da barragem em Mariana, mas tem na eliminação das montanhas seu ponto principal.

Em uma fabulação à primeira vista impossível, Simone Cortezão vai buscar nas mitologias ocidentais e orientais um meio de poetizar a sua história. O longa-metragem parte do Sonho de Nabucodonosor, mito judaico-cristão presente na bíblia, e encontra seu equivalente no conto do Cortador de Pedras, de tradição oral chino-nipônica. As alegorias tratam da ganância do homem e são livremente adaptadas pela diretora, que consegue integrar o mitológico à realidade de sua pesquisa.

Em ambos os mitos, há o desprender e o desabar de uma pedra, como elemento principal. Enquanto em Nabudonosor o evento suscita o fim da humanidade como então conhecida, no cortador de pedras, chega como a possibilidade de redenção do ser humano. Possibilidade esta ignorada por Cortezão, que, ao alterar seu final, promove o encontro entre as duas ficções. Encontro que, ressaltado no último diálogo do filme, de maneira pessimista, estabelece o sentido de universalidade e continuidade.

O filme é permeado por uma melancolia, sentimento bastante presente na figura calada e deslocada do personagem vivido por Rômulo Braga, que não só transporta as montanhas de que sente falta, como no passado ajudou a derrubá-las. O desconforto daquele homem está em sua espera constante, em seus pesadelos e em passagens em que relembra sua vida itinerante entre “cidades que apareciam e sumiam com as minas”.

É no deslocamento que o longa-metragem se constrói. O estranhamento com o ambiente e a busca por um local onde seja possível se encontrar é algo bastante comum no novo cinema brasileiro, mas há algo bastante diferente em Navios de Terra. Simone Cortezão transforma todos aqueles ambientes em personagens e, mais do que isso, de maneira quase literal, faz um filme sobre a viagem da própria montanha. Até aqueles homens que a acompanham tornam-se coadjuvantes.

Apesar de alguns tropeços no ritmo, Navios de Terra conta com interessantes inserções documentais, que relembram eventos reais de marinheiros embarcados; uma construção estética eficiente e muita habilidade na construção fabular. Assim encontra um caminho muito próprio na construção de sua história. E como é bonito ver que uma questão econômica pode se transformar em poesia.

Um Grande Momento:
Subindo a montanha.