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No Gogó do Paulinho

Colcha de retalhos sem inspiração

(No Gogó do Paulinho, BRA, 2020)

  • Gênero: Comédia
  • Direção: Roberto Santucci
  • Roteiro: Paulo Cursino
  • Elenco: Maurício Manfrini, Cacau Protásio, Carlos Alberto de Nóbrega, Juliana Guimarães, Léo Lins, Serjão Loroza, Estevam Nabote, Aramis Trindade
  • Duração: 98 minutos
  • Nota:

Maurício Manfrini só teve a identidade “revelada” há quase 3 anos atrás, quando o sucesso Os Farofeiros aconteceu em sua vida de maneira absolutamente espontânea. Lógico que seu rosto já era conhecido (e também por isso uma multidão foi vê-lo no cinema nessa produção de 2018 que deve ganhar uma continuação a qualquer momento), mas quem o público foi encontrar nos cinemas foi o Paulinho Gogó, papel que ele apresentou em programas de rádio, foi parar na Escolinha do Professor Raimundo de Chico Anysio e acabou por 16 anos sentando no banco da praça de Carlos Alberto de Nóbrega, no SBT. O novo porto do personagem é o Prime Video, onde No Gogó do Paulinho estreou hoje.

Mais uma vítima da pandemia COVID-19, o filme dirigido pelo mesmo Roberto Santucci que o lançou no cinema repete a fórmula do programa A Praça é Nossa e coloca o ator recebendo transeuntes num banco de praça para contar seus causos, uma espécie de homenagem à casa que Nóbrega apresentou a ele durante quase duas décadas. Se a homenagem funciona rapidamente para quem conhece o personagem (e Manfrini e Gogó são tão a mesma pessoa na cabeça do público que o ator é literalmente chamado nas ruas pelo nome do personagem), cinematograficamente o filme se ressente de… parecer um filme.

No Gogó do Paulinho

Mesmo utilizando locações em quase 100% das cenas, No Gogó do Paulinho é essencialmente um conjunto de esquetes amontoadas, unidas em sequência cronológica pra justificar a apresentação do personagem a quem não o conhece, que é o que acontece. O personagem, um típico malandro carioca de origem humilde que troca ou ‘come’ sílabas, muda o sentido de palavras e frases e sempre está contando causos supostamente engraçados (“quem não tem dinheiro conta história” é o seu bordão), que funciona em um programa com claques, mas que ao menos nessa produção, não foi capaz de perder seu caráter original mesmo se apresentando ao ar livre.

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Outro problema grave da produção é o fato de que absolutamente nenhum dos momentos humorísticos funciona. Já ouvimos falar que a comédia é muito particular e subjetiva, nem tudo que funciona para um espectador funcionaria com todos, mas o filme parece ter tanto cuidado para não parecer racista, machista, homofóbico, com suas cenas excessivamente controladas e contidas, que o humor mesmo parece ter pedido licença e saído do ar. Resta o carisma de seu protagonista, porque Santucci mais uma vez realiza o “arroz com feijão” que nos acostumou, travando o filme de qualquer qualidade imagética – mas ninguém, a essa altura, espera do diretor primor.

No Gogó do Paulinho

Dois único elementos dão energia ao filme, e saem dele limpos: Cacau Protássio e Estevam Nabote. A primeira, que tinha sido a partner de Manfrini em Os Farofeiros, vive a mítica Nega Juju, mulher da vida de Gogó e citada centenas de vezes por ele. Grande atriz que é, Cacau agrega efusividade e o naturalismo que faltam aos elementos do filme que deveriam ser cômicos, com seu talento natural, Já Nabote, revelação recente do Prêmio Multishow de Humor, trabalha com Manfrini há sete anos e serve como escada ao personagem aqui como outros três atores, mas nenhum se destaca como ele. O filme se ressente da ausência de Cacau e Nabote quando ambos não estão em cena.

Manfrini, infelizmente, não tem as melhores falas de sua carreira, e acaba preso ao roteiro bem pouco inspirado de Paulo Cursino, que tenta criar quase um “filme de origem” e esquece de ser um filme de comédia. As cenas são longas, as piadas perdem foco, e o ator não consegue dar o melhor de si, talvez preocupado demais em não perder o fio da meada do personagem que é seu principal veículo, e acaba sendo vítima da prisão que esse produto deveria representar para si.

Um grande momento
Não há

Fotos: Desirée do Valle

Ver “No Gogó do Paulinho” no Prime Video

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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