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Noite no Paraíso

Sem medo do fim

(Night in Paradise, KOR, 2020)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Park Hoon-jung
  • Roteiro: Park Hoon-jung
  • Elenco: Eom Tae-goo, Jeon Yeo-bin, Cha Seung-Won, Cho Dong-in, Park Ho-San, Hyun Bong-sik
  • Duração: 131 minutos

Filmes de máfia tem um apelo especial. Com Noite no Paraíso não é diferente. Familiarizado com o ambiente, o diretor Park Hoon-jung, do bom Nova Ordem, sabe como atrair o espectador com a sensação de familiaridade. Em elementos conhecidos conhecidos: a disposição cênica, os filtros, os cortes, os enquadramentos e os diálogos das primeiras cenas repetem cenas vistas várias vezes em dezenas de filmes de épocas e nacionalidades diferentes. E esse reconhecimento, esse conforto, estranhamente atrai quem assiste.

Mas se o começo é assim, o longa vai passar o tempo todo oscilando entre o óbvio e o improvável. A trama, escrita pelo próprio diretor, tem todos os elementos clichês do gênero: família, paixão, vingança, resgate e traição, mas a disposição é estranha. Enquanto se desenvolve, e inclusive tropeça na previsibilidade, o filme assume um outro caminho. Mesmo com todo o sangue, tiros e perseguições, há um olhar para o desencontro, não entre as pessoas, mas entre o indivíduo e a própria vida.

Noite no Paraíso

É no mínimo esquisito que entre uma cena de vingança sanguinolenta e a próxima reunião dos dois grupos rivais para decidir a solução para a guerra da máfia, você vai estar absorto no luto do protagonista; ou entre as negociações para a sua fuga estará reparando em como o flerte com a morte é uma característica de outra personagens e o quanto essa dinâmica modifica o andamento da história e as relações. A dicotomia, aliás, ressignifica tudo.

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Hoon-jung joga bem boa parte do tempo, embora se atrapalhe algumas vezes. O diretor acerta na ambientação, na ação e no grafismo da violência, assim como acerta na parte mais densa, quando busca esse lado psicológico, mas tem uma necessidade de trazer um humor à cena que nem sempre tem razão de ser, são piadas deslocadas ou mesmo momentos que nada acrescentam.

Noite no Paraíso

Há exageros também na hora de fazer com que as coisas aconteçam. Não existe muita preocupação com verossimilhança ou coisas do tipo, o importante é a cena de perseguição ficar boa. Não que isso seja um problema, mas num filme que está ali se dividindo entre o desapego pela vida e a ação, talvez sejam sequências excessivas demais. Mas que não deixam de ser divertidas.

E, no final das contas, Noite no Paraíso até queria ser mais do que isso, mas é um bom entretenimento. Um filme que sabe se valer da memória afetiva de um gênero para conquistar a atenção de seu público, faz seu caminho tradicional e consegue falar de coisas muito diferentes, embora o que se sobreponha seja mesmo o banho de sangue.

Um grande momento
Eu vou morrer mesmo

.

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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