Crítica | Festival

Eu e o Líder da Seita

Mais uma face do terror

(Aganai: 悪の陳腐さに関する新たな報告, JAP, 2020)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Atsushi Sakahara
  • Roteiro: Atsushi Sakahara
  • Duração: 114 minutos

Em 20 de março de 1995, um ataque terrorista aplicado com gás sarin e coordenado em 5 frentes diferentes nos metrôs de Tóquio matou 13 pessoas e deixou mais de outras 6 mil feridas, transformando-se assim no caso de ataque mais letal na História do Japão. Praticados por membros de um grupo fanático apocalíptico conhecido como Aum Shinrikyo e liderados por Shoko Asahara, o caso chocou o Oriente e é a base de Eu e o Líder da Seita, documentário na competição do festival É Tudo Verdade 2021, que propõe uma reflexão a respeito de algo muito mais complexo do que aqueles eventos em si, mas do corpo por trás daquele momento, deslocado no tempo.

Por quase duas horas, o diretor Atsushi Sakahara caminha com o atual líder do grupo, Araki, que à época era um jovem recém convertido à seita, e desnuda não apenas a sua relação com as ações de 95 como também conecta aquele homem de aspecto introspectivo à realidade de um sobrevivente dos ataques, o próprio Sakahara. O que se pode observar desse encontro, do longo dia que passam juntos e da comunicação que se estabelece entre os dois personagens é que raramente já vimos se desenvolver algo parecido com a natureza desse contato, que nunca deixa de ser revelador e também transgressor, conforme suas personalidades se complexificam na produção.

Imaginamos, a partir das linhas gerais do projeto, que a busca por um confrontamento no sentido mais livre da expressão era pretendido, mas o que acabamos por ver é de outra ordem. Ainda que os dois homens em cena tenham seus momentos de proximidade ao que os uniu em fato, a gênese de ambos é deflorada e desenvolvida em cena, tais como as similaridades (e os opostos) em seus lugares no mundo, e a forma como reagem ao seu exterior, tais como os homens que verdadeiramente são. Assim sendo, cada nova camada que é desfolhada de um ou outro cria imagens distorcidas do que eles poderiam ser e não se tornaram, no mundo idiossincrático onde cada um vive.

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Eu e o Líder da Seita

Um filme de caráter observacional onde a catarse se dá primeiramente (e talvez unicamente) no espectador, que na expectativa de um embate que se desenvolve sob novas perspectivas de imersão, precisa reorganizar seu olhar para a real mobilidade fílmica, uma carta de amor e perdão ao próprio passado, que é tão implacável quanto o presente refletido de nossas ações. Por vias tortuosas, os protagonistas de Eu e o Líder da Seita se reconhecem em silêncio e, tal qual o mais emblemático cinema oriental, se permitem absorver pelo prosaico do cotidiano, ainda que não seja todo dia que encontremos com um representante do que nos destruiu, ou com a vítima de nossas atitudes.

Há de se reconhecer o esforço em encarar o símbolo do nosso nêmesis com a plenitude alcançada por ambos, que vertem inúmeros assuntos como velhos camaradas. O trabalho de Sakahara diretor é intrometer o mínimo possível na naturalidade daquele encontro, sem perder o foco de suas intenções, mas com a certeza de que estava diante de uma possibilidade rara de filmar a origem da devastação, como a primeira labareda de um incêndio. Que ele constate uma melancolia contagiante, um desamparo abissal e uma solidão dilacerante não o transforma em misericordioso, mas em um cineasta que não fazia ideia de que encontraria “um vampiro sem dentes” – e, aos poucos, estreitar proximidade com um pretenso vilão, trazendo ambiguidade em doses cavalares ao filme.

Percorrendo o dia juntos, Sakahara encontra em Araki um homem tão perplexo quanto a sua narrativa que acaba por filmar a incompreensão que gera o fanatismo, a fobia causada pelo medo do desconhecido e a desproteção que pessoas responsáveis por ataques imagina-se ter: na dúvida, atacar. Por trás de atos monstruosos se escondem frágeis figuras inocentes? Não parece ser isso a dizer Eu e o Líder da Seita, um filme que parte de um olhar taxativo a respeito de um massacre e que, no meio do registro, esbarrou com um velho demônio que também carregava seus próprios fantasmas. O filme, ao final, o arremessa em direção às profundezas do seu próprio medo – a vida, e as escolhas que fazemos.

Um grande momento
Pais e filhos

[26º É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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