Crítica | Festival

Edna

(Edna, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Eryk Rocha
  • Roteiro: Gabriela Carneiro da Cunha
  • Duração: 64 minutos

eu vou para a janela e olho
a imensidão do campo vasto de flores,
flores do campo….Trago comigo uma saudade alegre

No fluxo do documentário de invenção, o novo filme de Eryk Rocha – com a colaboração criativa importante de Gabriela Carneiro da Cunha – evoca estéticas e texturas poéticas, uma dramaturgia já contida em Transeunte ou Pachamama, entre o embate da fricção das imagens ou a observação antropológica, para apresentar a personagem-título em toda a sua força frágil, muito humana.

Edna Rodrigues de Souza ilustra o cartaz do filme, selecionado para o ETV 2021 e para o festival francês Visions Du Réel como uma personagem que traduz sua verdade, seu legado anônimo e heroico. Portando sua sombrinha, vagueando por lugares da Amazonia Oriental (no sudeste do Pará), ela nota as trovoadas anunciando a chuva. Logo solta os cabelos e se deixa molhar enquanto declama alguns versos. “Olho pela janela e eu vejo meus filhos e filhas, flores sumindo. Vou para outra janela e parto; vejo o por do sol e aquele dia que foi mas outro vai voltar.”

Na estrada-tempo de Edna, tão bem documentada por Rocha, Gabriela (que também assina como assistente de direção e produtora) a tessitura é afinada pelo trabalho irretocável de Renato Vallone, montador e pensador de imagens na filmografia do cineasta. Essa perenidade do imagético se situa já no principio, quando o filme começa no Black sem se ouvir nada, só o ruído da mata, do que parece ser uma serra elétrica, uma árvore caindo, helicóptero passando, carros e pés marchando — perseguição, desmatamento, morte… fade in, imagem clareando e aparecendo numa estrada da Transamazônia, a BR-230. Com seus mais de 4 mil quilômetros, já traz uma constituição audiovisual apurada entre Bye Bye Brasil, Transamazônia e Iracema uma transa amazônica. E o passo, reverso da história na contramão do progresso verdadeiro; atravessado pela singeleza de uma mulher como Edna, que flui tal qual o rio, segue seu curso, rompendo obstáculos intrínsecos.

Edna

Nesse retrato intimo e também expansivo sobre o que é habitar a região com o maior numero de assassinatos de lideranças camponesas e populares no país costurado no argumento de Gabriela Carneiro da Cunha a partir da pesquisa consistente de Paulo Fonteles Filho, advogado e grande ativista pelos direitos humanos, que já nasceu preso pela ditadura dentro da barriga da mãe (a socióloga Hecilda Fonteles Veiga) e que dedicou parte da sua trajetória profissional e política as lideranças como Edna – o filme inclusive é dedicado a ele. Edna também foi vitimada pela truculência durante a ditadura como parte da Guerrilha do Araguaia, extinta em 1975 e depois a Guerra dos Perdidos que foi uma resistência campesina quando ela, sob a alcunha de Diná, foi presa e torturada.

Se recusando a se dobrar, a ser expulsa de sua terra e a arrefecer desde então, ela cruza suas memórias, devaneios e relatos históricos – que estão no caderno intitulado “A História da Minha Vida” -, ponderando e perfazendo o discurso fílmico de Rocha sobre as lutas que a formaram e uma guerra que ainda tarda em terminar. Nesse retrato quase que em sua totalidade em preto e branco, que traz uma outra matiz ao terreno tão colorido e mítico da Amazônia, como já ocorrera em O Reflexo do Lago, de Fernando Segtowick, há espaço para alguma leveza e cumplicidade como a relação com o amigo-companheiro Antonio (que diz que a outra namorada que tem se chama “reumatismo”).

Nascida em 14 do 9 do 50, Edna é como a árvore florida que insiste em circundar, que segue com as raízes firmadas e deslumbrando ao olhar mais aproximado. Preenchendo alguns espaços entre offs de Edna e sons de ambiência, a trilha diegética traduz o clima de placidez e alguma tristeza. Como num ensaístico filme de Maya Deren, os objetos são tradutores de sentimentos e sentidos daquela personagem, especialmente as cortinas esvoaçando com o vento. Transmutando em obra audiovisual os contos de Edna, a mulher-relicário.

Um grande momento
Cores no campo, flores no chão

[26º É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários]

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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