Crítica | Cinema

Nomadland

Da terra viemos…

(Nomadland, EUA, ALE, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Chloé Zhao
  • Roteiro: Chloé Zhao
  • Elenco: Frances McDormand, Charlene Swankie, David Strathairn, Gay DeForest, Patricia Grier, Linda May, Angela Reyes, Carl R. Hughes, Douglas G. Soul
  • Duração: 107 minutos

Ao observarmos os passeios que Fern, a protagonista de Nomadland, realiza ao redor dos amplos campos onde estaciona sua van, devidamente preparada para servir também como sua moradia móvel, enxergamos a essência que sua diretora Chloé Zhao costuma imprimir às produções de sua autoria. A sino-americana é ligada à terra e seus filmes refletem isso de maneira definitiva; não falando necessariamente sobre o planeta ou o material orgânico plano onde pisamos, mas a relação que o Homem estabelece com o espaço físico, seja habitando-o ou explorando-o. É a partir desse significado entre as criaturas e seus lugares que nasce uma das mais promissoras e simbólicas filmografias da atualidade.

Essa ligação intrínseca, quase transcendental, entre o humano e a matéria, seu espaço físico de origem e a busca por um lugar no mundo que possa ser chamado de seu, é a base de uma carreira jovem, porém robusta em autoralidade e na forma como expressa sua própria gênese. Nascida na China e educada (e naturalizada) nos Estados Unidos, Chloé é o retrato do deslocamento que busca fidelizar em sua obra, como se sua tríade de projetos percorressem um material que cabe em si própria. Esses dados estão nos personagens-histórias que a diretora fotografou em Songs My Brother Taught Me, Domando o Destino e aqui, indo ainda mais fundo politicamente do que já tinha sido até então.

Nomadland

Nomadland carrega na sua manufatura dois blocos de observação, o indivíduo e suas perdas e mais uma vez a abrangência do ato de possuir identidade, espaço físico e chão. Ao redor dessa narrativa também está enraizada a crise econômica de 2008, que desertificou os americanos a princípio de matéria, mas muito proximamente também os deixou órfãos emocionalmente. Então não dá pra pensar o filme só sob um ponto de vista ou sob o outro, quando são consequências diretas de ações irmanadas. Não há como observar a trajetória das figuras no filme/país como assertiva, quando elas se tratam de reconstrução contínua, a partir de suas individualidades ou de suas relações com o concreto.

Fern, a protagonista que gradativamente é apresentada e compreendida, vive ao fim e ao cabo numa zona de contradição, que talvez o filme perceba mais que a própria. Vítima da falência do Estado e do desamparo das suas raízes, Fern foi arremessada ao local de ausência absoluta graças aos grandes conglomerados que destruíram famílias e cidades, ainda que dependa do suporte de um deles para continuar sua jornada. Esse jogo de refletir no micro carente o macro dominante é uma das bases narrativas da produção, que desfila sua personagem em ambientes corporativos e/ou simbólicos para contrabalançar o manual e o industrial, a terra arrasada (ainda que nômade) contra o estabelecido pela sociedade como o “sonho americano” – em tradução livre para o português, “tradição, família e propriedade”.

Em busca de unificar espaços e pessoas, Chloé promove suas singularidades, para que entendamos como bifurcada é a questão da busca pela terra e pela identidade é para o americano do Norte desde a sua criação, reconhecidamente exploradores, conquistadores e saqueadores – o que cada um deles quer tomar pra si, hoje? Linda May, Swankie, Bobby, Dave, Fern e tantos outros não são um só, mas parte integrante de um país que, obrigatoriamente, necessita com frequência reescrever profundamente suas Histórias, e reescrevê-la ainda que por meio da tragédia externa, e a partir dela ressurgir em uma nova impressão digital.

Absorta em sua própria ancestralidade e no que o “nomadismo” representa pra sua história pessoal, a diretora realiza um filme de tessitura aparentemente simples, mas que (mal) esconde uma compreensão plena de senso de comunidade, afeto e empatia por trajetórias particulares, consegue diluir os limites entre naturalismo e narratividade se colocando em lugar análogo às experiências de Affonso Uchôa (Arábia e A Vizinhança do Tigre), e extraindo um sumo raro de encontrar nos Estados Unidos, quase criando um movimento contemporâneo de autoralidade em recorte específico de ambição e intenções. É minimamente interessante que justamente alguém tão sofisticada e sutil tenha sido cooptada pela Marvel, o que nos coloca na expectativa de um filme que pode ser uma jogada radical da Disney em 2021.

Nomadland

O trabalho de Frances McDormand, sozinho, é digno de um capítulo à parte. Como produtora e espectadora de Domando o Destino, Frances encontra em Chloé a pessoa ideal para verbalizar sobre os novos nômades da América; como atriz, a vencedora de dois Oscars (Fargo e Três Anúncios para um Crime) não apenas entrega uma performance jamais entregue antes por alguém tão profissionalmente exposta como ela – sua persona é transfigurada para agregar uma nova, interiorizada, econômica, empática, sensível, em completa consonância com os quadro geral que o filme quer retratar ao registrar tão íntimas existências/resistências.

Trata-se de um atestado muito rápido e muito sólido de maturidade, mas não apenas de Chloé Zhao, como especificamente de um movimento do cinema americano em torno do olhar de autoras na atualidade. Produções como First Cow de Kelly Reichardt, Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre de Eliza Hittman e Uma Noite em Miami… de Regina King apresentam uma parábola viva sobre o talento inconteste e as idiossincrasias dispostas em um grupo de cineastas muito especial, com vozes e narrativas muito particulares sobre a reconstrução histórica da América que aponta para uma urgente reconfiguração do hoje. No caso de Nomadland, estamos diante de um recorte atualizado sobre a história da criação do mito americano do empreendedorismo e da mobilização pela terra em múltiplas frentes, enquanto objeto de desejo e de formação identitária.

Em seu desfecho repleto de poesia imagética (graças às lentes espetaculares de Joshua James Richards) e melancolia narrativa, Chloé e Frances encontram uma maneira perfeita de traduzir uma gama de sentimentos triturados e transformados em algo novo. Não é apenas tristeza, ou apenas liberdade, ou apenas carência, ou apenas pertencimento, é isso tudo junto que dá rosto a algo completamente único. Se em determinada passagem imediatamente anterior o filme parece procurar em um breve clichê seu conforto possível, a partir do reencontro de Fern com seu momento de ruptura Nomadland potencializa sua política indo ao âmago do individual, para abraçar de vez o mundo após as pazes com sua aldeia, interior e exterior.

Um grande momento
Fern e Swankie

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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