Crítica | Streaming

Uma Noite em Miami…

Reapropriando espaços e falas

(One Night in Miami, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Regina King
  • Roteiro: Kemp Powers
  • Elenco: Kingsley Ben-Adir, Eli Goree, Aldis Hodge, Leslie Odom Jr., Lance Reddick, Christian Magby, Joaquina Kalukango, Nicolette Robinson, Michael Imperioli, Lawrence Gilliard Jr., Derek Roberts, Beau Bridges, Emily Bridges
  • Duração: 114 minutos

Quando Leonardo DiCaprio, há 21 anos atrás gritou da proa de um navio que era o “king of the world”, ele colocava para fora os pulmões de Jack Dawson, pobre, classe desimportante do maior transatlântico do mundo; na superfície, no entanto, o que víamos era a consagração de um jovem astro loiro de olhos azuis a um patamar de onde nunca mais saiu. 2021: Eli Goree, jovem ator canadense, também grita que é o rei do mundo ao fim do primeiro ato de Uma Noite em Miami…, mas tudo que se é representado ali é algumas muitas vezes mais expressivo – quantos jovens negros puderam gritar isso, na vida ou na arte, de construção tão forte cujo simbolismo ressignifique todo o olhar, para a obra e para a sociedade?

Regina King ganhou um Oscar há dois anos pelo filme Se a Rua Beale Falasse, e passou toda a década dirigindo episódios de séries de TV para chegar até aqui, em sua estreia como diretora de cinema de maneira ao mesmo tempo segura e arriscada, em óbvia contradição. A segurança advém de um produto já testado qualitativamente como a peça original de Kemp Powers ter gerado o filme em si, adaptado pelo autor; já o risco também se dá por esse motivo, tendo em vista as dificuldades de adaptar uma obra teatral para as telas sem parecer reverente ao texto, e necessitando soar livre das amarras que o palco produz.

Nesse sentido, o filme dá um passo adiante ao que A Voz Suprema do Blues fez esse ano, ao dinamizar os espaços cênicos e tentar ampliar o escopo do olhar para seus domínios narrativos, gingando pelo exíguo cenário que se impõe boa parte da duração e conseguir experimentar o exterior do mesmo com propriedade natural. Há um entrecho inicial que antecede à ação onde se concentra o ato cênico original, que não apenas apresenta seus personagens como também evolui a fictícia noite em que os mesmos se encontram para ecoar suas vozes, que é necessariamente inclusive o mote da obra, impulsionar a capacidade que heróis periféricos têm de serem ouvidos, amplificar seus alcances e celebrar suas existências.

Uma Noite em Miami..., estreia na direção de longas da atriz Reginda

Sem tomar partido de nenhum tipo, o filme abastece as personalidades de Malcolm X, Jim Brown, Sam Cooke e de Cassius Clay dos subsídios que os tornariam lendários, cada um em sua área e ostentando as cores de suas peles. Repletos de contrastes, o líder ativista, o campeão de futebol americano, o cantor de sucesso e um dos maiores pugilistas da História do boxe eram amigos de verdade, e Uma Noite em Miami… processa esse encontro que nunca aconteceu em momento crucial para suas trajetórias, às vésperas da mudança de nomenclatura de Clay para Muhammad Ali. O absurdamente espontâneo texto de Powers celebra as diferenças e os coloca em cheque às próprias convicções, obrigando cada um deles a expor sua verdade para confrontá-la no momento seguinte.

As decisões de Regina são acertadas a começar pela escolha da experiente Tami Reiker para fotografar o filme e conferir a ele uma mistura acertada de claustrofobia com um ilusão de liberdade intensa, ao ampliar os campos de visão dos personagens, dando a eles vastas possibilidades de movimentação e amplitude de raio de ação, mesmo que saibamos que esses espaços são limitados. Isso contribui inclusive com a temática de Uma Noite em Miami…, que versa sobre a tentativa desses homens em libertar-se de um papel social imposto a eles, enquanto periféricos alçados à idolatria branca – as imagens aparentam mais do que efetivamente representam, e Regina tira proveito dessa limitação.

Ao abrir seu filme em um ringue e montar essas sequências com o vigor que nos acostumamos a ver em produções do tipo, a diretora dá a Tariq Anwar (o veterano montador indicado ao Oscar por Beleza Americana) a oportunidade de dedicar inúmeras texturas de ritmo, determinadas por cada personagem ao longo de suas apresentações, e imprimindo a produção em si um arrojo técnico facilmente perceptível, que emoldura as emoções do espectador com essas gradações alteradas de maneira envolvente. Isso não confere somente cadência a Uma Noite em Miami… como um senso estético apurado que não costumamos ver com frequência em produçõcom essa origem.

Uma Noite em Miami...

O quarteto protagonista funciona à perfeição, cada um modulando intenções diferentes e interagindo com a naturalidade que o projeto exigia, sem deixar claro nunca um destaque óbvio. À medida que Kingsley Ben-Adir cresce, por exemplo, vemos Aldis Hodge nunca perder concentração da tessitura apaziguadora de seu personagem, ao passo que Leslie Odom Jr enfrenta o furacão ao seu redor com uma altivez impressionante e Eli Goree nunca deixa de explorar a pureza que reside em si. A cada quebra de seus personagens, todo o grupo reage de maneira orgânica e concentrada e todos contribuem para o projeto ter uma voz límpida a respeito de cada representação ali defendida, em pontos de vista delineados com delicadeza pelo roteiro.

Empregando em igual teor emoção e fibra, Uma Noite em Miami… faz parte de um grupo de produções que deram a essa temporada uma coesão impressionante no que diz respeito a representatividade étnica americana, e porque não dizer, social. Quando na linha do tempo, vemos Ma Rainey bradar pra ser a voz suprema de sua cor e 40 anos depois Sam Cooke ainda esteja subjugado, passando pela perseguição sofrida por Billie Holiday, o posterior necessário surgimento dos Panteras Negras e o envio de negros para as linhas de frente de batalha de todas as guerras, inclusive a do Vietnã, e percebemos como todos esses períodos serão revisitados nessa temporada (Estados Unidos vs Billie Holiday, Judas e o Messias Negro, Destacamento Blood), percebemos que todas essas vozes precisam ser ouvidas todas juntas, e formar um dos mais impressionantes momentos para a comunidade negra na História do Cinema Americano; Regina King realiza a sua parte desse todo com o brilho que sempre teve imprimiu como atriz.

Um grande momento
Bob Dylan

Ver “Uma Noite em Miami…” no Prime Video

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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