Crítica | Streaming

Uma Sombra na Nuvem

Monstros reais

(Shadow in the Cloud, NZL, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Roseanne Liang
  • Roteiro: Max Landis, Roseanne Liang
  • Elenco: Chloë Grace Moretz, Nick Robinson, Beulah Koale, Taylor John Smith, Callan Mulvey, Benedict Wall, Byron Coll, Joe Witkowski
  • Duração: 83 minutos

Tem filme que se complica todo no desenvolvimento, é óbvio além da conta, se repete bastante, entra no modo espetáculo do impossível e faz muita coisa daquilo que não só estamos cansados de ver, como nos afasta da experiência. Uma Sombra na Nuvem consegue juntar todos esses deslizes, em altas doses, mas, curiosamente, estabelece uma outra relação com o espectador. O longa vai buscar na história algo que possa transformar em ponto de partida e desenvolver coisas interessantes, criando uma alegoria curiosa para o que é ser mulher, não só naquela realidade restrita.

Dirigido por Roseanne Liang, o filme resgata uma história não tão contada nos cinemas: a da grande participação das mulheres na Segunda Guerra, principalmente na aeronáutica, pilotando aviões de combate. Quem ilustra essa experiência no roteiro da própria diretora, em parceria com Max Landis, é a personagem Maude Garrett, vivida por Chloë Grace Moretz. Embarcada em uma nave com tripulação exclusivamente masculina e com uma encomenda confidencial, ela se vê sujeita a todo tipo de situação machista, da desconfiança ao assédio.

Uma Sombra na Nuvem

Um ponto curioso é como os roteiristas trazem o fantástico à trama, com uma lenda dos primeiros povos de Albion que foi resgatada e modernizada durante a guerra. Os gremlins, criaturas que se tornaram famosas pelo mundo com os filmes de Joe Dante, são seres chatos e traiçoeiros que gostam de bagunçar e destruir as coisas. Em sua origem, apenas irritavam e incomodavam, mas suas funções foram aumentando com a chegada e multiplicação dos eletroeletrônicos e dos aviões. Vistas como traiçoeiras e sabotadoras, as criaturas se transformaram em um assunto recorrente dos pilotos da força aérea britânica para explicar falhas nas aeronaves e nas missões.

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A associação entre gremlins e aviões de guerra foi vista como positiva para a moral dos combatentes, e a criatura ilustrou campanhas publicitárias e de alerta, além de virar personagem de Roald Dahl (roteirista de A Fantástica Fábrica de Chocolate). Claro que o primeiro registro desta associação no romance de uma aviadora, Pauline Gower, em seu livro “ATA: Women with Wings”, não é muito lembrado. Isto está na alegoria de Uma Sombra na Nuvem, assim como tudo o que Garrett escuta na torreta do avião, onde é obrigada a ficar, e mais a imagem da mulher dentro e fora das forças armadas, a própria maternidade e o convívio diário com a misoginia.

É o lado que vale e interessa — muito — no filme. Todo este trabalho de recriação do universo patriarcal em um ambiente único, com uma mulher apartada e subjugada. São situações muito identificáveis: ali estão os assédios sexual e moral em um lugar de incapacidade de resposta. Garrett é objetificada, tem sua capacidade profissional questionada, é silenciada e tratada como louca. São crueldades cotidianas, ainda corriqueiras e que deveriam não mais existir. E têm efeitos cruéis e duradouros. 

Uma Sombra na Nuvem

Por outro lado, Uma Sombra na Nuvem é um filme de ação completamente descontrolado. Se a obviedade na demarcação da sua mensagem pode ser perdoada pelo didatismo necessário pela falta de compreensão do contexto por décadas de tentativa de explicação, a apresentação dos personagens em contraposição à protagonista, num esforço para dar rosto ao oposto, chega tola demais. A construção da tensão é inconstante, tem lá os seus momentos, mas se perde terrivelmente nos exageros e, a eles, dedica tanto tempo que acaba no humor involuntário.

O roteiro também tem lá as suas questões. Toda a justificativa da trama é instável, com conexões frágeis e justificativas que, se valem porque existe no horror alguma coisa além do básico evidente, no que está ali estampado na primeira camada chegam a soar pueris. Nesse desarranjo, cabe aos atores encontrar uma posição e a mais confortável acaba prevalecendo e Liang parece mais interessada em outras coisas.

Ainda assim, Uma Sombra na Nuvem prende o espectador no balanço inesperado. Pelo exagero, porque filme de ação ruim tem esse poder, e pela mensagem, porque uma boa alegoria também tem. E, olha, a cena final resume tudo isso muito bem. Como produção, é clichê e fraca até dizer chega, mas tem um significado enorme para o cinema estadunidense (o filme é uma produção Nova Zelândia/Estados Unidos), pois lá não há exposição da ação mais natural da maternidade, Parece coisa pouca, mas é um passo enorme.

Um grande momento
Derrotando o monstro

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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