Crítica | Festival

Transamazonia

(transamazonica, BRA, 2019)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Bea Morbach, Débora McDowell, Renata Taylor
  • Roteiro: Bea Morbach, Débora McDowell
  • Duração: 82 minutos
  • Nota:

Iracema, uma Transa Amazônica. Transamazonia. Mulheres trans da amazônia, na estrada transamazônica – BR 230. Mulher cis e trans, corpos em trânsito. Corpos que são relegados à marginalidade, que são desumanizados e enxergados como repositórios de esperma.

Marcelly tinha 12 anos quando não sabia nem o que era um telefone e começava a ver televisão. Mas não via notícias. Era o decurso da ditadura militar brasileira. “Esse filme foi filmado nas cidades de Marabá e Labrea, a última da transamazônia enquanto o Brasil atravessa um golpe parlamentar” – anuncia a narradora/personagem.

Transamazonia

Mulheres imensas, intensas, caudalosas e repletas de força como os rios que correm pela Amazônia. Poética é a pujança narrativa com que Débora MacDowell e Bea Morbach abrem o filme Transamazonia, feito a seis mãos com a ativista trans (estreando como cineasta e atriz) Renata Taylor. Elas emprestam seus olhares para cruzar as vivências de Melissa e Marcelly, jovens mulheres trans vivendo à beira da rodovia transamazônica.

Evocando as memórias do subdesenvolvimento e explanando sobre os sonhos delas, o filme vai extraindo por meio das percepções dela pensamentos macro e micro sobre viver na Amazônia. E ser mulher tornada, vencendo o preconceito, mostrando na pele o impacto da rodovia na vida das duas e das populações que vivem ali. O diálogo fílmico com obra seminal de Jorge Bodanzky e Orlando Senna está posta, com uma delicadeza que permeia esse relato documental do Brasil dos rincões.

Transamazonia

E com essa presença evocativa de mulher, atrás e na frente das câmeras – ou seja na TV que mostra uma violeira feminina tocando o clássico “Casinha Branca” de Peninha. No espelho que mostra Melissa passando batom, retocando e filmando sua rotina, no formato que se conflui como quando a Iracema do filme de 1974 vagueia pelos postos de gasolina interagindo com caminhoneiros reais. Num universo, numa sociedade que não aceitam as suas margens, suas existências. Existência das prostitutas, domésticas, donas de casa, autônomas, daquelas que são suprimidas de tantas narrativas.

Transamazônia representou o cinema do Pará e da região amazônica no festival Mix Brasil em 2019 e volta a ser exibido online no festival Amazônia Doc, na plataforma AmazôniaFlix.

Um grande momento
Os estranhamentos no diálogo pós capítulo da novela do plim plim.

[6º Amazônia Doc]

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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