Crítica | Outras metragens

Noite Perpétua

A arte para falar de dor, horror e impunidade

(Noite Perpétua, POR, FRA, 2020)

  • Gênero: Ficção
  • Direção: Pedro Peralta
  • Roteiro: Pedro Peralta
  • Elenco: Paz Couso , Matilde Couso de Arccos, Domicília Nunes, Sara Piris
  • Duração: 17 minutos
  • Nota:

Para falar de mais um período sombrio da história da humanidade, a Espanha pós-guerra civil e dominada pelo franquismo, Pedro Peralta resgata em Noite Perpétua a história da professora Matilde Morillo Sánchez, morta pelo regime. O clima da época e o peso do evento são traduzidos em um estilo que remete ao tenebrismo, a mais radical corrente do chiaroscuro na pintura. O diretor não só cita visualmente Caravaggio, o grande nome da tendência, como toma emprestados a distribuição espacial de Francisco Ribalta e os tons de José de Ribera em seus quadros mais terrosos.

O peso que já vem com a pouca luz se intensifica com o que Peralta não mostra ou demora a mostrar. Antes que se conheça a imagem, chegam a cantiga que se confunde com o choro desesperado de um bebê, os passos pelos um corredor, ou rangidos e batidas secas na madeira, tudo muito intenso na recriação dos últimos momentos de Paz, nome de forte significado, tendo em vista o contexto (e também nome da atriz que a interpreta, Paz Couso). O jogo cênico é estritamente calculado, e vai buscar no teatro sua disposição. São detalhes que impressionam no fundo do plano, como o olhar entre mãe e irmã, ou em destaque, como uma simples mão no ombro que, como uma dança, altera o movimento.

Noite Perpétua, filme curta-metragem selecionado para o 9º Olhar de Cinema

A quase perfeição estética que se realiza na incorporação de linguagens consegue, em 17 minutos, demonstrar o peso da Ditadura de Franco e de suas falanges, que mataram e deixaram desaparecidas milhares de pessoas. Elas chegam em Noite Perpétua não apenas pela sensação de angústia e medo impressas, são personalizadas em dois falangistas que o realizador opta por incluir sem realmente revelar em tela. Das batidas da porta, vai-se às costas e apenas em relance vê-se o rosto de um deles. São homens da escuridão, covardes, sem rosto.

Em Noite Perpétua as imagens constroem o discurso, em um trabalho primoroso de execução e encadeamento de planos. Os poucos pontos de luz, que justificam o estilo escolhido, iluminam sem força aquilo que precisava revelar-se. Na composição da despedida, expõem o carinho entre as mulheres, o espaço onde construíram suas vidas e sentiram a angústia e reclusão do franquismo, e o apego às filhas em duas belas cenas: a da amamentação e a do beijo na cama. Há outras passagens igualmente inspiradas, que conseguem traduzir a força da personagem principal, como quando a câmera a espera chegar até à porta, ou como quando se afasta dela para explorar o espaço que, pela última vez, será ocupado por ela.

Noite Perpétua, filme curta-metragem selecionado para o 9º Olhar de Cinema

Além da imagem, Peralta é comedido nos diálogos mas, ao usá-los, é cirúrgico, preciso. “Há quantos anos você me conhece?” pergunta Paz a um deles depois deste demonstrar o seu ódio por republicanos. Poucas palavras que são suficientes para traçar o que há de mais duro nas polarizações, na política da criação de um inimigo, que destrói famílias e comunidades fazendo com que pessoas, do dia para a noite, tornam-se inimigos mortais. Em tela 1939, mas o filme alcança a atual escalada da extrema direita no mundo, com táticas de manipulação tão comuns às de Francisco Franco.

Noite Perpétua é pura arte, uma coleção de artes aproveitadas, transformadas, agregadas para alcançar sentido e significado. Do que não se vê pela ausência de luz ou pela opção de não mostrar àquilo que é explícito em gestos ou palavras, do tenebrismo pictórico à influência deste no palcos, não há nada em tela que extrapole ou não faça sentido. Em uma representação muito própria da história de Matilde, a quem o diretor dedica o filme, o curta alcança um raro lugar de despertar no espectador o sentimento de que aquilo tudo não poderia ser expresso de uma outra maneira. Em tempo, forma e reflexão.

Terra Seca

Terra seca
terra quieta
de noites
imensas.

(Vento na oliveira,
vento na serra.)

Terra
velha
do candil
e da pena.
Terra
das fundas cisternas.

Terra
da morte sem olhos
e as flechas.

(Vento dos caminhos.
Brisa nas alamedas.)

Federico Garcia Lorca

[9º Olhar de Cinema]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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