Crítica | Festival

O Espião

(El agente topo, CHL, 2020)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Maite Alberdi
  • Roteiro: Maite Alberdi
  • Duração: 85 minutos
  • Nota:

Qual é o limite do documentário? Até que ponto ele pode invadir a ficção para encontrar a realidade? Ou até que ponto a criação ficcional pode encontrar a realidade e não desviar dela? O hibridismo, e a discussão sobre ele, são antigos e já deixaram – e continuam deixando – muitos griersonianos e vertovianos indignados. Mas será que ainda há sentido em se debruçar sobre esta questão? O Espião é um filme limítrofe que, como todos os outros, reacenderá a discussão. Mas vamos, então, voltar à história do gênero – à nossa. Como classificar uma ficção que colhe depoimentos reais por onde passa, como fizeram Bodanzky e Senna em Iracema – Uma Trama Amazônica? E Serras da Desordem, de Tonacci, que parte para a reencenação de fatos por quem já os viveu antes; ou Maria Augusta Ramos, que usa atores para tornar Juízo viável? Mais recentemente, o que é a mistura de Juliana Antunes em seu Baronesa?

Por trás de todos, a intenção. É para ela, sempre, que se deve olhar. A vontade do realizador em contar a sua história e torná-la possível. Em O Espião, Maite Alberdi encontra na ficção o dispositivo para adentrar em sua investigação documental. Partindo de uma busca anunciada em jornal, encontra o elemento que possibilitará uma nova interação com o ambiente que quer explorar. A diretora acerta na forma, ao mesclar as realidades – ou não-realidades – vivenciadas por seu protagonista, e no método. Como em todo documentário, parte sem certeza dos resultados, mas trabalha bem com o emaranhado de real e irreal, num jogo inesperado, porém explícito, que provoca dúvidas e certezas sem nunca deixar o espectador completamente consciente do que está acontecendo.

O Espião (2020)

A trama de O Espião acompanha um senhor idoso contratado por uma agência de investigação para se infiltrar e descobrir se uma das moradoras de uma casa de repouso está sofrendo maus-tratos. Entre os pontos positivos do longa, está o encontro de alguém tão carismático como Sergio Chamy como protagonista. Desde como ele interage com Rómulo Aitken, detetive chileno, e com a própria filha antes de começar a sua missão, até o modo como se integra ao novo ambiente, com muito carinho e solidariedade por todas aquelas pessoas com quem convive, o personagem provoca no espectador a empatia imediata.

É natural sofrer com suas tensões, como a dificuldade com a tecnologia, a falta de jeito para conduzir a investigação e as barreiras dentro do próprio ambiente. Natural também se afeiçoar junto com ele a todas as pessoas em tela. E eis aí a intenção de Alberdi: é preciso sentir-se junto a Chamy nesse descortinar da realidade da velhice, que traz consigo solidão, carência, medo. Num espaço onde as pessoas estão sem os seus e esperando pelo fim, com seus arrependimentos e amarguras, mas também com o senso de união e preservação.

O Espião (2020)

Ainda que alcance o seu objetivo, há questões incômodas, como os limites da consciência da exposição, algo que não aparece pela primeira vez na obra da diretora, responsável também pelo longa As Crianças. Assim como neste, até que ponto aquelas pessoas têm a real dimensão do que estão representando em tela. Se ali em Chamy, confiante de ser um investigador e estar fazendo um trabalho sério, já surge o estranhamento do limite da atuação e a conscientização, isso se agrava quando se pensa nas senhoras com quem ele interage, muitas já com certas limitações e sem responsáveis para falar por elas.

É incômodo, mas não invalida a experiência. O Espião traz um tema que costuma receber pouca atenção da sociedade e que está aí, presente em todos os lugares: a chegada e a vivência da velhice e a dificuldade da sociedade em lidar com isso. Alberdi o faz de maneira inovadora, transitando entre gêneros e nem sempre respeitando limites; trazendo câmeras para onde elas não são esperadas e confundindo, levando o espectador a suspeitar até mesmo das informações que tinha até então.

Um grande momento
“Chora…”

[25º É Tudo Verdade]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
Botão Voltar ao topo