Crítica | Streaming

O Informante

Esferas da lei

(The Informer, GBR, EUA, CAN, 2019)
  • Gênero: Ação
  • Direção: Andrea Di Stefano
  • Roteiro: Matt Cook, Rowan Joffe, Andrea Di Stefano
  • Elenco: Joel Kinnaman, Mateusz Kosciukiewicz, Karma Meyer, Ana de Armas, Rosamund Pike, Clive Owen, Martin McCann, Arturo Castro, Common
  • Duração: 113 minutos

Em determinado momento de O Informante, produção que acaba de entrar em cartaz na Netflix, acontece uma rebelião em um presídio diferente da grande maioria das situações já mostradas no cinema; é basicamente “o exército de um homem só”, com apenas o protagonista vivido por Joel Kinnaman em conflito com a instituição e abrindo fogo contra a mesma da maneira mais unitária possível, na organização e no ataque. Não é necessariamente silencioso, mas é o mais ordeiro que poderíamos imaginar de um evento como esses, sempre retratado com muita evolução de ações. Aqui, temos um homem apenas querendo ser notado e sobreviver ao rolo compressor da máquina estatal que o usou e tenta agora cuspi-lo fora.

O ator e diretor Andrea di Stefano entrega aqui seu segundo longa metragem com a experiência que adquiriu na frente das câmeras (talvez por isso a direção de atores seja tão evidente e sua qualidade) ao adaptar o romance de Anders Roslund e Börge Hellström em um thriller policial repleto de elementos que se desencadeiam em paralelo sem parecer excessivo. Com sua narrativa provavelmente mais aprofundadas em páginas, o filme tem uma cadência acertada pelo roteiro do próprio Stefano, mais Rowan Joffe e Matt Cook, que consegue limpar os excessos e concentrar a ação sem descaracterizar seus personagens e suas motivações, criando uma abordagem enxuta para a realização ao desenvolver suas camadas.

O informante (2019)

Diferente de Sem Remorso, O Informante consegue desenvolver lugares menos óbvios em sua investigação formal sobre a forma deturpada como os EUA executam leis e determinam condenações prévias ao julgamento físico; em espaço de tempo reduzido, o protagonista Pete Koslow é sovado de um lado a outro sem parecer metralhado de informações pelo roteiro ou atropelado pela onda de acontecimentos que o absorve gradativamente. Em cena, temos um homem devassado já no calor dos acontecimentos que atravessavam sua trajetória, cujas motivações são devidamente esclarecidas em diálogos travados durante a projeção, sem faltar ou exceder seus propósitos.

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Editado com impressionante esmero por Job ter Burg (atual parceiro de Paul Verhoeven, em Elle, A Espiã e no vindouro Benedetta), O Informante consegue fazer uma mágica que não é fácil de completar, ao compactar uma narrativa que precisaria de mais tempo de desenvolvimento, dar ritmo vertiginoso em sua narrativa e criar uma cama compreensível aos eventos, além de proporcionar cortes precisos em cenas que não se engarrafam; em uma matemática que poderia não concluir seu resultado, as fórmulas mais complexas acabam funcionando no longa e cumprem o papel de entreter sem precisar baixar o nível do entendimento do espectador, nem a qualidade do material imagético produzido.

O informante (2019)

Existem no mercado produtos e produtos, e mesmo que uma produção seja tão desavergonhadamente produzida para abrigar uma dose sem contra indicação de adrenalina, sempre há uma forma de temperar seu material com produtos de qualidade. Além do trabalho de Stefano ter qualidades que o fazem se sobressair do manancial de mesmices diários, o diretor constrói planos muito bem decupados como quando Koslow é deixado sozinho no banheiro da prisão, e a câmera o captura de perfil ao longe. Ainda que não se desenhe da maneira mais aprimorada possível, o filme realiza cenas e personagens com cuidado que não é costumeiramente visto em títulos policiais.

Além do talento ascendente de Kinnaman que já era observado em Noite sem Fim, o filme conta com a igualmente ascendente Ana de Armas (Entre Facas e Segredos) e o terceiro lançamento seguido de Rosamund Pike no Brasil. Depois de Eu me Importo e Radioactive, a atriz encara novo personagem dúbio que é alicerçado a um patamar ainda mais complexo graças ao seu talento. Ela e Clive Owen representam esse lado mais obscuro do cumprimento da lei que o filme mostra como deturpável, de acordo com interesses outros que não os de fazer justiça, simplesmente. Ainda que de maneira enviesada, O Informante está jogando no espectador também um olhar amplo sobre os conceitos de vilania e heroísmo.

Um grande momento
A rebelião

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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