Crítica | Cinema

Ronda Noturna

Do já visto à surpresa

(Police, FRA, BEL, CHN, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Anne Fontaine
  • Roteiro: Claire Barré, Anne Fontaine
  • Elenco: Virginie Efira, Omar Sy, Grégory Gadebois, Payman Maadi, Elisa Lasowski, Emmanuel Barrouyer, Anne-Pascale Clairembourg, Anne-Gaëlle Jourdain, Cécile Rebboah, Cédric Vieira, Thierry Levaret
  • Duração: 98 minutos

Anne Fontaine parte de lugares comuns e situações facilmente reconhecíveis para estruturar o seu Ronda Noturna. Dona de uma filmografia heterogênea, com títulos como Nathalie X, Como Matei Meu Pai, Coco Antes de Chanel e Agnus Dei, neste drama policial ela aposta na não-linearidade narrativa, no multifoco e em vários pontos de vista para contar a história de quatro pessoas em um evento simples: a transferência de um preso, supostamente terrorista, que está prestes a ser extraditado de volta ao Tajiquistão.

O filme acompanha um dia dos policiais Virginie, Aristide, Erik e o prisioneiro Asomidin Tohirov desde as primeiras horas, alternando as experiências em eventos picotados que vão, ao mesmo tempo, contando suas histórias individuais e estabelecendo uma ligação entre eles. Embora todos tenham suas curiosidades, há um claro interesse à personalidade e ao dilema de Virginie, a ela é dada a função de guiar o longa que percorre por mais de uma vez o mesmo caso de violência doméstica, maus tratos contra um animal, uma batida policial de rua até chegar ao evento fatídico.

Ronda Noturna

Embora haja toda uma questão política gritando no pano de fundo, com a postura adotada com o imigrante em sua prisão e deportação, Fontaine opta por uma abordagem que privilegia o fator humano, o modo como aquelas pessoas lidam com cada uma das situações e, principalmente, como se sentem com a ausência de posicionamento do Estado com o debate principal. “Deviam ter deixado ele morrer queimado. É menos hipócrita!”, diz a advogada de direitos humanos. Outros temas como machismo, casamento e maternidade também surgem pelo caminho.

No fluxo interrompido, a diretora insere memórias para completar o background de seus policiais, mas prefere não inserir imagens do passado de Tohirov, numa contradição contextual que, por um lado, mantém o tom do filme, mas, por outro, reforça uma falta de espaço que o filme condena. Outra coisa é bastante comum de títulos que apostam no multifoco: o peso da repetição no ritmo da narrativa. Ronda Noturna até consegue se estabelecer bem, porém, ainda que se recupere, se ressente dos retornos.

Ronda Noturna

O trabalho do quarteto principal é fundamental para o filme. Virginie Efira (Sybil), Omar Sy (Intocáveis), Grégory Gadebois (O Oficial e o Espião) e Payman Maadi (A Separação) encontram a química perfeita. Com personalidades bem delineadas, presos boa parte do tempo em uma espaço delimitado, estabelecem um jogo equilibrado de silêncio, mal estar e tensão. Há cenas inspiradas, como a comunicação pelo olhar, a incerteza da compreensão, os sinais vermelhos pelo caminho.

A forma e o conteúdo de Ronda Noturna podem não ser originais, mas Fontaine sabe trabalhar com isso para estabelecer e reforçar a tensão. O modo como os personagens nos envolvem e como a relação entre eles vai se fortalecendo fazem do filme uma boa opção para aqueles que gostam do gênero. Não é nada que vai ficar para sempre, mas é aquele típico exemplar que parte do esperado para boa surpresa.

Um grande momento
Os seis minutos

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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