Críticas

O Oficial e o Espião

(J’accuse, FRA/ITA, 2019)
Drama
Direção: Roman Polanski
Elenco: Jean Dujardin, Louis Garrel, Emmanuelle Seigner, Grégory Gadebois, Hervé Pierre, Wladimir Yordanoff, Didier Sandre, Melvil Poupaud, Eric Ruf, Mathieu Amalric, Laurent Stocker, Vincent Perez, Michel Vuillermoz, Vincent Grass, Denis Podalydès
Roteiro: Robert Harris, Roman Polanski
Duração: 132 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

Antes de falar do filme, quero voltar a 1999, à cerimônia do Oscar. Naquele ano, Elia Kazan foi o indicado ao Oscar honorário pelo conjunto de sua obra. Ao subir no palco para receber a estatueta, uma grande parte da plateia não só não o aplaudiu como virou de costas, em protesto. Este ato de repúdio à premiação foi exaltado mundo afora, afinal de contas aquele homem merecia tudo aquilo pois havia ajudado o macarthismo, denunciado seus colegas.

Anos depois, Roman Polanski, após um demorado e bem-vindo período de conscientização dos direitos das mulheres, tem seu filme O Oficial e O Espião indicado ao César em 12 categorias, incluindo a de melhor direção. Uma grande manifestação contrária às indicações aconteceu, o que resultou na renúncia da direção da Academia Francesa. Porém, ainda assim, Polanski, que não compareceu à cerimônia, saiu premiado e várias mulheres presentes na Salle Pleyel levantaram-se e saíram do recinto. A repercussão: várias daquelas mesmas pessoas – e muitas delas mulheres – que aplaudiram o protesto contra Kazan gritaram contra “o absurdo” de se protestar contra o diretor francês. “Sua obra não pode ser invalidada”, diziam. Numa comparação que não consigo alcançar quando se lembra que com Kazan a postura foi outra.

Pois bem, sabe qual é a diferença entre as duas recepções? O machismo! Machismo puro e simples. Porque não há que se falar que a obra de Kazan seja menor ou menos significativa, porque não há que se falar que uma ação foi mais violenta do que a outra. Por trás de tudo está o valor da mulher na sociedade. Não que denunciar colegas a um regime repugnante não seja absurdo, mas quando foi que se definiu que isso era mais terrível do que estuprar pessoas? Além disso, o considerar uma manifestação ou um boicote contra alguém como desprezível é, antes de qualquer coisa, ignorar o direito de outras pessoas em se posicionar quanto a suas verdades. Se este alguém é um estuprador pedófilo isso fica ainda mais estranho.

Roman Polanski foi julgado e condenado pelos crimes que cometeu nos Estados Unidos contra Samantha Geimer, que à época tinha 13 anos de idade, mas fugiu para a França antes do cumprimento da sentença e um acordo entre os dois países impede a extradição. Desde então, ele não pisa nos EUA para evitar a prisão. Com o #metoo e a mobilização das mulheres na indústria, o caso ganhou força novamente e outras denúncias de abuso e estupro aconteceram.

O filme

Mesmo com tudo isso, Polanski nunca parou de produzir ou ter dinheiro para fazer seus filmes e contar as histórias que acha que merecem ser contadas, numa posição privilegiada, bem diferente da das mulheres. E foi assim que chegou ao agora premiado O Oficial e o Espião, longa-metragem que traz de volta às telas a história do capitão Alfred Dreyfus, injustamente acusado de espionagem. Toda a trama é realmente um prato cheio para a construção de uma narrativa. A primeira vez que chegou ao cinema foi de forma seriada, por ninguém menos que George Méliès, numa re-encenação do julgamento, e teve ainda várias outras versões.

Conhecido na França como L’affair, o caso expôs o antissemitismo do exército e do país e a influência da imprensa e da opinião pública na determinação de culpados e em suas penas. Polanski cirurgicamente escolhe sua abordagem pela retomada do processo, através de descobertas tardias do general Georges Picquart, vivido por Jean Dujardin. Ao tirar o protagonismo de Dreyfus (Louis Garrel), aproxima-se das entranhas do exército e da própria construção da farsa.

Baseado no romance de Robert Harris, adaptado por ele próprio e pelo diretor, a trama flui bem entre os eventos, ainda que não consiga dar profundidade a todos os personagens. Com tantos, muitos perdem-se pelo caminho e alguns precisam de artifícios para ter suas importâncias destacadas, como algo fora da trama, menos natural e, portanto, distante.

Mas é na habilidade com a costura que Polanski se destaca. O diretor sabe como construir uma trama que envolva e cative. Ainda que vá e volte, transite entre ambientes diversos, a coerência de sentimentos e quadros é muito minuciosa. Há sempre uma preocupação em levar a história para o próximo passo, num misto de percepção e provocação. O controle do elenco também pode ser colocado nesse lugar, como algo fundamental para que o direcionamento funcione.

Eu acuso!

Para além da concatenação e do ritmo, há todo um cuidadoso trabalho de ambientação, com desenho de produção e figurinos muito elaborados, além da bem empregada trilha de Alexandre Desplat. Ou seja, tudo no lugar certo para que O Oficial e o Espião funcione, acesse uma das mais importantes histórias da França e traga à tona questões do passado que voltam a se repetir com essa onda nazifascista que toma conta do mundo. Mas não deixa de ser incômodo ver justamente Polanski recontando esse caso quando se pensa em sua história pessoal.

Assim como o diretor, Dreyfus era judeu e passou por um julgamento, mas as semelhanças param por aí. Enquanto este teve o antissemitismo como determinante em sua condenação injusta e cumpriu uma pena indevida, Polanski foi condenado baseado em provas reais e fugiu para não pagar por seus crimes. A perseguição pública de um é guiada pelo teor preconceituoso e discriminatório, a do outro pela tentativa de resgatar anos de uma cultura de diminuição e invalidação de direitos. O transformar isso tudo em similaridade autobiográfica, e aqui voltamos à velha discussão do papel da arte, seu uso e seu alcance, é baixo e volta àquele velho ponto de sempre: há uma noção de que qualquer coisa que se faça contra a mulher é mais irrelevante, esquecível e perdoável. Sempre colocando o ser e seu corpo como uma espécie de objeto ou algo inferior, que não merece a mesma consideração. Os protestos não são apenas por ser mais um filme do Polanski, mas por ser J’accuse o filme de Polanski.

O Oficial e o Espião é um grande filme, extremamente bem executado, sem dúvida, mas seu diretor não deixa de ser quem é. Eu, como crítica de cinema, particularmente e falando apenas por mim, me sinto na obrigação de vê-lo e analisá-lo, fazendo com Polanski como faria com Kazan ou com Leni Riefenstahl. Analisando a obra, por que faz parte do meu trabalho; repudiando tudo o que fizeram além dela, porque sou humana, e, fazendo a ligação entre as duas coisas quando assim for necessário. Porém, acima de tudo e em primeiro lugar, respeitando todo e qualquer direito das pessoas de se posicionarem, porque elas devem ser livres para isso e quem sou eu para julgar.

Mas queria muito, de verdade, que os detratores desse movimento parassem para pensar na seletividade com que aplaudem manifestações e naquilo que está por trás disso, porque estamos há tanto tempo expostos – e principalmente expostas – a essa estrutura masculina e patriarcal que não percebemos o quanto crimes contra mulheres são menosprezados ou tidos como menos relevantes do que qualquer outro.

Um Grande Momento:
“Não é outro caso Dreyfus, general”

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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