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O Jardim Secreto de Mariana

A natureza é bruta

(O Jardim Secreto de Mariana, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Sergio Rezende
  • Roteiro: Sergio Rezende
  • Elenco: Andréia Horta, Gustavo Vaz, Paulo Gorgulho, Denise Weinberg
  • Duração: 79 minutos

João é um tipo solitário, que tenta fazer as pazes com o próprio passado, quando perdeu seu grande amor, Mariana, diante de uma série de eventos que fugiu ao controle do casal. O Jardim Secreto de Mariana, novo filme de Sérgio Rezende, investiga o passado e o presente desses dois personagens para que seu futuro possa não ter o mesmo destino. Aos poucos, uma narrativa envolvente se desenrola, no que também podemos observar a falta de intimidade do veterano diretor com o prosaico cotidiano de uma relação a dois, passando ao largo de sua tradição autoral épica.

É preciso que o cinema brasileiro possa investigar histórias humanas (e algo mundanas) como a de O Jardim Secreto de Mariana com mais frequência, e que minimamente promova uma discussão sobre suas escolhas imagéticas, mas também narrativas. As intenções para o projeto eram as melhores, mas falta estofo ao material; na verdade, a palavra certa é volume, que poderia definir melhor sua ausência principal. Com uma textura naturalista, cabia ao roteiro do filme (assinado por Rezende e sua filha, Maria Rezende) dar espaço para desenvolver suas minúcias, pois são elas que vão dar complexidade não apenas aos personagens como também às suas ações.

O Jardim Secreto de Mariana
© Mariana Vianna

Nos últimos anos, minisséries americanas (muitas delas desenvolvidas pela HBO) foram responsáveis por complexificar a vida cotidiana e seus percalços, muitas vezes tidos como prosaicos. Essa era a visão de Rezende, um homem que tem espacialidade pelo grandiloquente (Guerra de Canudos é um de seus maiores momentos no cinema, mas também Mauá e O Paciente), mas ele já tinha passeado pelo mínimo antes, no belo Quase Nada. Aqui, assolado por questões de grandiosidade psicológica, faltou ao diretor manter sua duração agigantada, dessa vez para desenvolver o interior de seus personagens, e não a grandiosidade de seus feitos.

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Soa abreviado a história que abarca tantas camadas de duas pessoas que sofreram tanto por amor e por engano, pelo silêncio e pelo descaso próprios, e pra conseguir abarcar sua intensa psicologia. Na tela, vemos tanto João quanto Mariana pular de um sentimento a outro, da depressão e melancolia para uma ansiedade e uma certa euforia, sem dar conta do que os levou até novo momento. Não falta entendimento para captar as essências, mas faltam as nuances que separam um estado do outro; parece frio demais, sem paixão, justamente um sentimento que deveria permear as decisões tanto de um quanto de outro, que acabam se atropelando em seus sentimentos.

O Jardim Secreto de Mariana
© Mariana Vianna

Sem esse dado capital, fica difícil fruir a narrativa durante a maior parte do tempo, e o espectador segue muito mais absorvendo as cenas específicas do que acompanhando a sua totalidade, que carece da força que Rezende imprime em suas histórias baseadas no verídico. Aqui, os saltos temporais comuns a biografias se tornam ainda mais incômodos, tendo em vista que precisávamos do tempo para compreender a gravidade das agressões cometidas, sejam elas verbais ou emocionais. Da forma colocada, a banalização daquela relação acaba saltando mais aos olhos, completamente o oposto do que deveria ser.

À Andreia Horta e Gustavo Vaz, dois atores de vastos recursos, cabe tentar escapar das armadilhas impostas por espelhar recortes de um casal, muito mais do que sua totalidade, e não é culpa deles que tudo saia muitas vezes despropositado. Os coadjuvantes Paulo Gorgulho e Denise Weinberg se saem muito melhor, justamente porque a eles cabe a pontualidade das cenas, um escopo restrito. O Jardim Secreto de Mariana, por fim, peca pela ausência de material, porque o espectador compreende o lugar que se queria alcançar. O lamento é pelo que se abriu mão, em nome de uma concisão que aqui fez muito mais mal que bem.

Um grande momento
A natureza é bruta

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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