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O Telefone do Sr. Harrigan

(Mr. Harrigan's Phone, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: John Lee Hancock
  • Roteiro: John Lee Hancock
  • Elenco: Donald Sutherland, Jaeden Martell, Joe Tippett, Colin O'Brien, Kirby Howell-Baptiste
  • Duração: 104 minutos

Tem uma coisa de familiaridade nos romances do Stephen King que talvez só mesmo os fãs possam testemunhar. Sejam bons, medianos ou ruins, é sempre bom estar lendo um livro do escritor, como se de alguma maneira se pudesse voltar a um lugar confortável – mesmo que nem sempre seguro – bastante conhecido. Mesmo que se apontem todos os dedos e se falem de todos os defeitos, se há uma coisa que ninguém pode tirar de O Telefone do Sr. Harrigan é que ele conseguiu encontrar essa sensação de reencontrar o escritor. Nunca será, é óbvio, como abrir um livro, não há comparação com a experiência literária, mas com essa atmosfera familiar, conhecida.

Pois bem, é King. Reconhecemos seu universo, os personagens, o relacionamento com o cotidiano, o amor pelas letras, e até mesmo o andamento no desenvolver da narrativa enquanto o jovem Craig (Jaeden Martelli, de It e O Chalé) apresenta o sr. Harrigan (Donald Sutherland, de Jogos Vorazes e Ella e John) e a amizade entre os dois. John Lee Hancock (Um Sonho Possível), que além de dirigir também assina o roteiro, é bem sucedido nesse encontro/homenagem e, enquanto cineasta operário que é, surpreende ao impor o seu jeito de trabalhar o tempo e o suspense.

O Telefone do Sr. Harrigan
Nicole Rivelli/Netflix

Quem está procurando um thriller intenso, com muito terror sobrenatural, aliás, é melhor nem começar esse aqui. Apesar da premissa dar espaço para isso, são outras as questões que ganham destaque em O Telefone do Sr. Harrigan, e o que gera interesse para o drama nem sempre funciona para o horror quando falta equilíbrio entre eles. Hancock opta pelo mais arriscado e não há elegância na construção de uma Maine ou vínculo estabelecido com os personagens – Sutherland está especialmente cativante – que acompanhe a transformação após a virada do roteiro. De um lado está a expectativa do público em uma história onde o sobrenatural demora tanto para se revelar, de outro um certo abandono do drama que demorou para de estabelecer. 

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O grande tema de King, o medo da morte, chega enviesado e numa mescla da dor do luto e no poder de decidir, e também está ali uma de suas marcas, o terror que se esconde nos aparelhos e hábitos domésticos e cotidianos. Aqui, um celular, o tal telefone do sr. Harringan do título, presente que o idoso ganha de Craig com o dinheiro que o menino ganhara em uma raspadinha num Natal passado. Esse dispositivo tão presente em nossas vidas tem suas funções exploradas; recebe, até de uma forma tosca, as críticas esperadas, e assume o lugar de elemento de poder/pavor, mas também de luto.

O Telefone do Sr. Harrigan
Nicole Rivelli/Netflix

Por trás de qualquer tentativa sobrenatural, está a relação que se estabelece entre essas duas pessoas, a amizade entre eles e, além do vínculo que Craig não sabe como romper depois de tantos anos, uma nova imagem que ele não consegue conceber. Assim, mesmo que incompleto sem si, há coisas interessantes em O Telefone do Sr. Harrigan, que trazem o filme para perto de quem o assiste e o tornam identificável. Ao mesmo tempo em que a frustação é real, pelo menos de uma parte da audiência, há o suficiente para agradar. Basta que se compreenda que o olhar de Hancock estava mirando em outra direção.

Um grande momento
“Bata na parede” 

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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