Durante muito tempo, o cinema brasileiro olhou para fora em busca de monstros, fantasmas e criaturas fantásticas, enquanto um universo inteiro de lendas e assombrações permanece vivo nas margens dos rios, nas estradas de terra e nas histórias contadas à beira da cama. Olhe Para Mim, longa de estreia de Rafhael Barbosa, surge como um lembrete de que não faltam mitologias brasileiras capazes de alimentar a imaginação.
Apostando na chave do horror e inspirado em uma lenda do Rio São Francisco, o filme acompanha Marcelo, um jovem que convive desde a infância com o desaparecimento da mãe e com sua inadequação ao ambiente em que vive. O encontro com Sandra e Ivan desencadeia uma jornada que atravessa o sertão alagoano e aquele território onde memória, desejo, espiritualidade e fantasia convivem sem necessidade de explicação racional. Por trás de tudo está a coruja rasga-mortalha, ave cercada por histórias e superstições em diversas regiões do Brasil, tradicionalmente associada à morte e aos maus presságios. Aqui, porém, ela ganha novos sentidos e se transforma numa presença que paira sobre toda a jornada do protagonista.
O grande mérito de Rafhael Barbosa está em compreender que os mitos sobrevivem justamente porque nunca permanecem iguais, transformando-se de acordo com quem os conta e com quem os escuta. A rasga-mortalha do filme carrega algo da lenda, mas também se conecta a sentimentos atuais. Sua presença e seu canto evocam o medo da perda, a lembrança da mãe desaparecida e, de maneira mais sutil, a sensação de inadequação vivida por quem cresce fora das normas impostas por uma sociedade heteronormativa.
A forma queer como esse universo se revela está no desejo de Marcelo e em suas versões. Está também na própria condição de sujeito deslocado, permanentemente situado entre mundos. Entre a infância e a vida adulta. Entre a realidade e o fantástico. Entre aquilo que lhe ensinaram a ser e aquilo que descobre em si mesmo. Olhe Para Mim é delicado ao se aproximar dessas experiências sem transformá-las em alegoria simplista, pois a fantasia não existe para ilustrar a identidade do personagem, está ali como uma parte inseparável de sua maneira de existir.
A potência ecoa na construção visual, com cores que marcam estados emocionais distintos e se alternam em momentos de acolhimento, mistério e desejo. O sensorial está muito presente na direção de arte e na fotografia, transformando paisagens já impressionantes em espaços quase encantados. A mesma coisa pode ser dita do trabalho sonoro. Sons da natureza, ruídos, silêncios e música se misturam para construir uma atmosfera que quase sempre antecede o que a imagem ainda não mostrou. Assim como a lenda em que se inspira, muitas vezes é o som que anuncia a presença do mistério, conduzindo o espectador por esse território onde o concreto e o sobrenatural coexistem.
Enquanto alguns filmes se utilizam de lendas populares de maneira fácil, Olhe Para Mim entende que essas histórias continuam vivas porque ainda oferecem maneiras de compreender aquilo que escapa. Aqui, o desaparecimento, o desejo, a morte, o amor e a busca por pertencimento encontram abrigo em um imaginário ancestral que atravessa gerações. Ao resgatar a rasga-mortalha e os mitos do sertão alagoano, Rafhael Barbosa comprova que essas tradições continuam capazes de produzir novas imagens, novos afetos e novas formas de olhar para o mundo.
Um grande momento
No rio


