Crítica | Streaming

Os Espetaculares

O espetáculo passou longe

(Os Espetaculares, BRA, 2020)

  • Gênero: Comédia
  • Direção: André Pellenz
  • Roteiro: Sylvio Gonçalves
  • Elenco: Ricardo Gadelha, Paulo Mathias Jr., Luisa Perissé, Miguel Pinheiro, Rafael Portugal
  • Duração: 87 minutos
  • Nota:

Difícil achar algo que corresponda a seu título em Os Espetaculares, um filme que parece nem fazer esforço algum para ser cinematográfico. Dirigido por André Pellenz, que com o primeiro Minha Mãe é uma Peça inaugurou a franquia mais rentável do cinema nacional, o filme foi feito para um grupo tão específico de fãs da comédia que é capaz de passar despercebido até por esses mesmos. Com lançamento inicialmente previsto para maio, o filme foi engavetado pela COVID-19 e viu a cor do sol há dois meses, em estados muito selecionados; agora chega à Amazon Prime com cara de inédito e tentando não passar despercebido.

Ao pensar no filme, todos os problemas parecem se unir em torno dele. Espécie de esquete esticada de qualquer humorístico televisivo, ao mesmo tempo Os Espetaculares parece ter a parca ambição de chegar ao Multishow e virar uma série como tantas que infestam hoje o canal, tirando a personalidade do mesmo e do próprio produto. Sem qualquer apresentação estética mínima (e não estou falando de mirar em Bacurau não, mas em Vai que Cola mesmo, ou seja, nem aí o filme chega), é complexo encontrar uma defesa para a produção e o lugar onde ela consegue chegar.

Os Espetaculares

Sua trama é, no mínimo, desinteressante – e, vejam só, Leandro Hassum já tentou algo mais “substancial” nessa seara, em Chorar de Rir. Segue a rotina de um comediante de stand-up, arrogante o suficiente para ter perdido tudo à sua volta (amigos, família, trabalho, espaço, etc…) e o fundo do poço ser uma realidade concreta. Quando um concurso o faz retomar a humildade perdida na marra, ele vai descobrir o valor de tudo que perdeu finalmente. Ou seja, já vimos esse filme antes em todas as roupagens possíveis, e o filme nem se esforça para requentar o material.

Parecendo ter sido rodado em uma semana, Os Espetaculares não dá ênfase a nenhuma virada motivacional de seu protagonista. Mesmo sabendo que essas forçadas de barra para sublinhar a narrativa nunca saem menos que extremamente bregas, o filme se alicerça nessa composição de idéias-clichê, e nem a elas o filme atende, passando incólume por qualquer relevo dramático que o roteiro apresenta. Trocando em miúdos, o samba só tem uma nota mesmo, e nada é apresentado para aumentar o potencial narrativo – a não ser na inútil cena de perseguição final, que literalmente não leva a nada.

Os Espetaculares

O filme é narrado em primeira pessoa pelo filho do protagonista, e talvez essa seja a única ideia que se salve no projeto. Embora seja igualmente antiquada e o filme não a valorize como deveria (aliás, nada aqui é valorizado), existe uma situação e qualidade no projeto, ainda que à deriva como todo o resto. Assim como todos os elementos entregues de qualquer maneira, esse dado se perde no meio do excesso de erros de um filme que nem engraçado consegue ser, pecado maior de uma produção cuja intenção é essa.

A cereja do bolo do desperdício é o seu elenco, mais especificamente seus dois atores centrais. Se Rafael Portugal têm se destacado continuamente no canal de humor Porta dos Fundos, em quadros que sempre exploram seu imenso potencial, e ter aqui personagem idêntico ao de Chorar de Rir (e já ter mostrado excelente material dramático em Carcereiros), Paulo Mathias Jr. ainda é um profissional mal aproveitado, que o cinema só viu em produções da categoria de Tudo Acaba em Festa. Nenhum dos dois (ou qualquer pessoa do elenco) tem culpa do naufrágio que é Os Espetaculares, e ambos mostram aqui que merecem veículos à altura de seus talentos.

Um grande momento
Neville DÁlmeida (!!!!) em um galpão

Ver “Os Espetaculares” no Prime Video

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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