Crítica | VoD

Zona Árida

Passado e encenação

(Zona Árida, BRA, EUA, 2019)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Fernanda Pessoa
  • Roteiro: Fernanda Pessoa
  • Duração: 76 minutos
  • Nota:

Neste momento, estamos em meio às eleições nos Estados Unidos e a cobertura do processo é intensa. Na tela dentro da tela, o mapa do país aparece colorido: o vermelho dos Republicanos com Trump, e o azul do Democratas com Joe Biden. Os comentaristas vão mudando a tela para comparar com eleições passadas, mas quase não se vê diferença. Estadunidenses são constantes: o meio-oeste e o sul, com exceção de dois estados, são sempre vermelhos, lá, os conservadores. Mas todos, surpresos, chamam atenção para um estado lá embaixo inesperadamente pintado de azul, o conservador Arizona. Foi aí que a diretora Fernanda Pessoa (Histórias Que o Nosso Cineam (Não) Contava), aos 15 anos, fez seu intercâmbio. Zona Árida é um retorno a esse passado, um estudo sobre a postura subserviente e deslumbrada do Brasil com o país que colonizou o mundo.

E não há forma mais evidente de se constatar a colonização do que a influência de sua eleição presidencial em todo mundo – com altas em bolsas de valores, por exemplo – e, especialmente, no Brasil, onde o presidente bate continência à bandeira estrangeira e espera num corredor para dizer “I love you” a um dos candidatos, o atual líder Donald Trump, versão alaranjada dele mesmo. Isso sem falar nos favores de última hora para favorecer as eleições de lá. Mas nem vou começar a falar de favorecimento de eleições porque vou acabar chegando a Curitiba e esse texto não vai ter fim. Voltando à influência, ou pode-se dizer propaganda em massa, dos EUA no Brasil, por mais pessoal que seja o documentário, há esse ponto que o traz para bem perto, e torna o embarque na viagem fácil.

Zona Árida (2019)

O nome do filme (e do lugar), obviamente, é um trocadilho com o clima do estado, a zona árida para onde a diretora escolheu ir. Às de fotos e documentos, Pessoa acrescenta entrevistas sobre o seu passado e imagens dos mesmos lugares no presente. É interessante perceber como muito tempo depois tudo segue inalterado na preconceituosa cidade de Mesa, e de como os jovem assumiram o local dos antes adultos. A diretora aproveita-se bem dessa permanência, que é o que conecta com o que acompanhamos da região – a popularidade de figuras reacionárias e posições preconceituosas – e nos surpreende com o resultado das eleições de hoje, que, frise-se, foram bem apertados.

Zona Árida se interessa nessa conversa entre os tempos estagnados num país se enxerga como muito evoluído, a carta que a Fernanda de hoje envia para a Fernanda de antes estabelece como ela passou por isso e como é voltar para este lugar que não mudou com o tempo. Mais do que a observação temporal, o documentário quer falar de imagem, aquela que é propagada, vendida, e que também tem a ver com a mesma coisa uma vez que não pode ser modificada. A diretora fala especificamente da encenação, e é isso que mantém a propaganda estadunidense viva.

Zona Árida (2019)

Aquele ambiente ainda vive de um passado ligado à dizimação que revive dizimação como forma de superioridade, a conquista territorial e destruição da natureza como forma de evolução. A coisa de manutenção do passado transcende o cotidiano escolar e familiar, está na reconstrução de um passado mais distante, em percepções e apontamentos de atualizações disfarçadas de antiguidades para ter mais valor. Se há muito interesse nesse resgate, quando se trata das entrevistas e do pessoal, o documentário se repete bastante na determinação da não evolução. Até encontra bons momentos, como a vergonha pelo posicionamento mais enfático de uma mulher ou o preconceito com os mexicanos, mas repete-se mais do que o necessário.

Embora cansaço surge aqui e ali, quando a abordagem muda, Pessoa consegue recuperar o fôlego. Naquele condado usurpado de índios, numa cidade fundada por mórmons, há um estranhamento muito bom ao andamento quando ela se põe em cena. Há um momento em Zona Árida especialmente interessante, um plano aberto em meio a vegetação seca e rochosa com um ponto amarelo que se move ao longe e se revela aos poucos. Uma estranha no meio de um ambiente hostil. Há irregularidade, mas nela tem muita coisa a ser descoberta e desmascarada. Depois disso, uma coisa é certa, aquele azul do começo do texto não vai mudar nada.

Um grande momento
“Seu sorriso não me engana”

Fotos: Rodrigo Levy

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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