Crítica | Cinema

O Barco

Mitos e marcas

(O Barco, BRA, 2018)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Petrus Cariry
  • Roteiro: Rosemberg Cariry, Firmino Holanda, Petrus Cariry
  • Elenco: Rômulo Braga, Samya de Lavor, Verônica Cavalcanti, Everaldo Pontes e Nanego Lira
  • Duração: 72 minutos
  • Nota:

por que não alimenta o corpo com benquerença,
aceitando o agrado dos outros?
porque o corpo está morto
e a alma?
a alma é hóspede da Terra, procura e te olha os
olhos agora, e te vê cheio de perguntas

a obscena senhora D., de Hilda Hist

Petrus Cariry (Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois) é um cineasta que sabe como criar poesias imagéticas com narrativas elaboradas. Se muito vem do pai, Rosemberg Cariry, um mestre na mesma arte, outro tanto vem das curiosidade e personalidade do realizador. Seus filmes vagueiam entre realidades, e, alcançando o melhor do cinema, entregam ferramentas aos espectadores para que cacem em suas próprias experiêncais e referências um norte que pode ou não encontrar o do diretor. Com O Barco não é diferente. Em sua fábula de isolamento e descoberta, ele abre espaço para inferências diversas, possibilidades de caminhos míticos inesperados e sempre bem-vindos.

Há algo interessante quando se estuda mitos: a adaptação constante. Se existem para explicar aquilo que não conhecemos/entendemo e acabam sendo o responsáveis, segundo Jung, pela formação do inconsciente coletivo – e o consciente também, consequentemente -, é natural que suas formas se repitam em culturas e sociedades diversas. São os mesmos fins, com personagens e enredos diferentes. O filme, inspirado no conto homônimo de Carlos Emílio Corrêa Lima do livro Ofos, cria seus próprios mitos, mas é possível encontrar representações de outras tradições, do Oriente ao Ocidente.

O Barco (2018)

Naquela ilha, o isolamento dos que abandonaram a civilização, por desejo ou necessidade, e que, para manter sua sociedade saudável, personalizam o sanbiki no saru – um cego, um mudo, uma surda – determina a vida de A, primogênito da família. Embora ele saiba o que quer, e o que não quer mais, não encontra muitos caminhos para fugir, já que está num lugar onde todos desafiam o tempo, podem estar a tecê-lo ou escrevê-lo, como moiras e seus ecos. Até que uma norna ou uma ninfa chega para alterar tudo. Senhora do futuro, vinda das águas, transforma e carrega.

O mergulho nas descobertas e conexões é facilitado pelo modo como tudo se apresenta em O Barco. Cariry é obsessivamente detalhista na criação da estética, o que faz de seus filmes verdadeiras obras de arte. Aqui, assinando também a direção de fotografia, usa a luz natural de candeeiros para criar a sensação de opressão em seus quadros e opta pela marcação da contraposição pela sombra, inquieta do fogo ou fixa no contraluz. Somando a isso os planos abertos que acompanham o vaguear de A por dunas e falésias, traduz a inquietude, o não-pertencimento.

As cores, ainda que discretas, são reservadas à Ana, a transformação. Ela é alguém que veio de fora e, assim como A, não tem intenção de ficar. Se há um conforto no constituir a vida da família de A e das pessoas presas no espaço-tempo, a abordagem nas performances da forasteira vêm carregadas de uma demanda reprimida não muito justificada. Já há muitos elementos e nem sempre o que é belo precisa ser tão esmiuçado a ponto de descolar-se da história. Assim como nem tudo que se infere precisa ser mostrado.

Apesar disso, O Barco é uma experiência instigante. Com um elenco encabeçado pelo sempre competente e quase onipresente no novo cinema brasileiro Rômulo Braga e atuações precisas de Everaldo Pontes e Veronica Cavalcanti, mergulha em mitos e símbolos e dá liberdade para que eles se reconstruam para além da origem. Entre as marcas do tempo – passado, presente e futuro – e de condição – morte e vida – o barco pode surgir como culpa, ausência e esperança, trazendo inquietude e levando certezas.

Um grande momento
O cego conta para o mudo.

Fotos: Divulgação/Petrus Cariry

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
Botão Voltar ao topo