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Os Olhos Negros de Marilyn

Palco para um caos controlado

(Marilyn ha gli occhi neri, ITA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Simone Godano
  • Roteiro: Giulia Louise Steigerwalt
  • Elenco: Stefano Accorsi, Miriam Leone, Thomas Trabacchi, Mario Pirrello, Andrea di Casa, Orietta Notari, Valentina Oteri, Marco Messeri, Lucio Patané, Astrid Meloni, Giulia Patrignani
  • Duração: 114 minutos

Há alguns anos, o cinema italiano lançou uma comédia rasgada com toques de melancolia, Loucas de Alegria, um grande sucesso popular, muito premiado que contava a história da amizade entre duas mulheres que se conhecem em uma instituição para pacientes com distúrbios mentais. Estreia de hoje na Netflix, Os Olhos Negros de Marilyn tem premissa tão aproximada e com um assunto tão fora do comum que nos faz refletir sobre essa necessidade do cinema em repetir autoralidades vez por outra. O registro de tom também se aproxima e, embora não possa ser considerado plágio, mais uma vez registra-se essa coincidência tão comum que assola a arte vez por outra.

Dirigido por Simone Godano, que vem entregando nome na comédia italiana atual com títulos leves e que permitem uma certa reflexão, o longa olha para essa situação que vinha sido também conduzida por Paolo Virzi anteriormente com atenção redobrada. Não há apenas a intenção de traçar um retrato específico em relação a espinha dorsal narrativa e seus dramas pessoais, mas também com uma fatia de pessoas com algum transtorno e encontram-se em situação de abandono. O diretor é hábil em construir um recorte que enxerga com credibilidade um universo de pouco acesso do público e conseguir nos fazer empáticos com aqueles tipos, conhecendo cada uma de suas idiossincrasias em tela.

Esse sabor coletivo diferencia a produção e também a relativiza, porque o filme compreende que seu tema é muito mais delicado do que uma tentativa racional de radicalizar uma comédia romântica tradicional. Há o cuidado com o tratamento dado às patologias diversificadas apresentadas ao longo da produção, que abrange um grupo bem heterogêneo de personagens, cada qual em diferentes estágios de necessidades especiais. Isso coloca o espectador no centro nervoso da narrativa, o faz compreender cada uma daquelas vivências, que são tratadas com leveza mas sem menosprezar suas delicadas funções narrativas. Ainda assim, não é um mero suporte de roteiro que seus universos estejam resolvidos dentro de um contexto de coadjuvantismo – acima de tudo, é um tratamento adulto.

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Esse centro nervoso da produção é um acerto de escalação e de desenho narrativo. O roteiro, escrito por Giulia Louise Steigerwalt, é feliz em desenvolver um grupo tão diverso de tipos dentro de um mesmo esquadro. Sua parceria com Godano ocupou todos os projetos do diretor e aqui afina esse processo com uma ideia que não é necessariamente original, mas que aqui privilegia esse recorte complexo de leitura e criação de um grupo de tipos que não é apresentado todos os dias, com muita propriedade. O acerto final é da presença de Stefano Accorsi e Miriam Leone em cena, em missão muito arriscada que é o de credibilizar um recorte sensível sobre essas pessoas marginalizadas socialmente. Tem muita doçura na interpretação de ambos, mas também uma fúria latente, e uma paixão desmedida pela arte de representar; ambos se complementam e apresentam trabalhos de riqueza ímpar.

Se esteticamente a direção de Godano para Os Olhos Negros de Marilyn não elabora o arrojo que talvez a anarquia de seus personagens peça em cena, sua mão firme para controlar o caos que os mesmos arregimentam, na tentativa de impor os limites que esse grupo não permite a si, está presente. Nesse sentido, os recursos utilizados na contenção da balbúrdia proposta pelo roteiro e seus relevos de personalidade são bem-vindos para dosar a instabilidade da sua linguagem. Ainda assim, o filme carece de uma certa personalidade imagética que o defina de maneira menos tímida; o vigor que explode na tela nunca é observado pelo plano, mas pela criação, individual ou coletiva, de seus artistas filmados na plenitude de seus esforços como atores.

A simplicidade cênica, que está presente em toda a projeção, centraliza a exuberância de seus atores para um ponto focal onde eles sejam a estrela de uma produção que claramente os ama, munidos de um texto que dignifica aquelas vidas em cena. Sem munição suficiente que chame atenção para sua autoralidade, Godano escora sua produção no que o esmero permitiu ali: filmar com propriedade uma história esfuziante sobre um grupo de pessoas que, socialmente, não encontra espaço ou voz para um discurso. Apesar das pontas soltas que exibe em seu encerramento, Os Olhos Negros de Marilyn honra figuras tão ímpares na cena cinematográfica, sem romantizar suas escolhas e sem diminuir a força dramática de suas presenças.

Um grande momento
A abertura

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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