Crítica | Streaming

Você Pertence a Mim

Thriller requentado

(Every Breath You Take, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Vaughn Stein
  • Roteiro: David Murray
  • Elenco: Casey Affleck, Sam Claflin, Michelle Monaghan, India Eisley, Veronica Ferres, Vincent Gale, Lilly Krug, Hiro Kanagawa, Emily Alyn Lind
  • Duração: 105 minutos

O projeto de Você Pertence a Mim começa a exatos 10 anos, com uma configuração completamente diferente da que o Telecine estreia hoje, em sua plataforma – agora ligada à Globoplay. Dirigido por Rob Reiner e protagonizado por Harrison Ford e Zac Effron, o filme com certeza seria regido por outras diretrizes, provavelmente mais animadoras, tendo em vista que Reiner tem em seu currículo o impressionante Louca Obsessão. Do projeto original, restou apenas o roteiro de David Murray, com os personagens sendo agora vividos por Casey Affleck (Oscar por Manchester à Beira Mar) e Sam Claflin (de O Livro do Amor), e o que temos é um produto antigo, ainda que funcione aqui e ali, principalmente dentro do exercício de gênero. 

No lugar de Reiner, a grande perda: Vaughn Stein, apesar dos títulos anteriores no currículo, é mais “conhecido” como assistente de direção, indo de Guerra Mundial Z a A Bela e a Fera, e aqui comanda uma produção que poderia ter sido feita em 2012, em 2002 ou em 1992, talvez o ano onde o filme mais se assemelhe a título de comparação. Não se sabe porque esse roteiro foi alvo de interesse por uma década por inúmeras equipes, mas que ele tenha terminado dessa forma, tem mais a ver com sua energia e inspiração. O tiro foi mirado em tramas de thrillers de sucesso dos últimos 30 anos, mas que em si continham além do charme da época, talentos específicos que norteavam a narrativa, mesmo que muitas vezes estivessem servindo à veículos para construção de suas imagens como estrelas. 

© Vertical Entertainment US

Aqui, temos um Affleck já absolutamente laureado e estabelecido (embora com alguns escândalos na cartola) e um Claflin que tenta há anos alçar um voo mais alto, como astro e como ator. Seriam dois excelentes personagens, o psicólogo atormentado com um passado trágico e um homem enlutado por inúmeras perdas familiares e de procedência sombria. O primeiro não parece muito à vontade com a própria composição, ainda que sustente as particularidades do seu tipo; o segundo se sai com maior entrega, afinal é quem tem mais a ganhar, mas só bem depois da metade é que seus esforços parecem surtir efeito. No desenvolvimento, parecem duas composições condizentes com o projeto, que nunca alcança o entendimento de suas perdas e dores. 

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Ainda assim, o filme consegue sim compreender um certo sentido interno de comunidade. A família composta por Affleck, Michelle Monaghan (a esposa de Ethan Hunt na cinessérie Missão Impossível) e India Eisley (de Não Olhe) são um grupo de pessoas unido em uma dor muito palpável, passam credibilidade enquanto indivíduos e enquanto grupo, assim como a família amiga deles também se comporta com muita unidade, e suas interações sempre soam orgânicas. Não se trata de um trabalho na linha da excelência por parte dos atores, mas que a direção conseguiu elaborar um cuidado cênico e um arranjo crível e muito funcional, ainda que nunca se ambicione ir além dos clichês. 

Quando se afasta desse aspecto, Você Pertence a Mim incorre em uma estética de gosto duvidoso em montagem confusa, ao diversificar sua paleta em tons opacos que aludem a uma certa nebulosidade sempre que precisam especificar um tempo não-naturalista. São flashbacks misturados a projeções imemoriais que não permitem outras coisas ao filme a não ser confundir o espectador, e tornar sua apreciação menos eficaz. É como se uma excelente ideia tivesse sido apresentada cuja realização não acompanhasse esse pensamento; a diferença é que o filme não tem muito pra onde ir que não para lugares muito pedestres, e esse seria o barato da produção, não tentar inventar algo fora do comum para o trivial. 

© Vertical Entertainment US

Conforme avança, Você Pertence a Mim exibe sua porção farofa e o filme passa a funcionar muito mais, do que ao tentar inventar uma realização portentosa. Não há muito o que elaborar além daquelas situações muito repetidas típicas de um suspense, com direito a reviravoltas finais até simpáticas. O que o torna inferior ao que poderia ter sido é essa tentativa de elaborar uma condição elevada, quando Stein deveria apenas ter compreendido seu filme como uma produção à moda antiga, sem qualquer juízo de valor. Se não podemos vencer as nossas deficiências, que possamos então tirar proveito delas, como o filme aprende na metade do segundo tempo. 

Um grande momento
Enfim rivais, e de lados opostos da interrogação

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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