Crítica | Cinema

Os Pequenos Vestígios

(The Little Things, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: John Lee Hancock
  • Roteiro: John Lee Hancock
  • Elenco: Denzel Washington, Rami Malek, Jared Leto, Chris Bauer, Michael Hyatt, Terry Kinney, Natalie Morales, Isabel Arraiza, Joris Jarsky, Glenn Morshower, Sofia Vassilieva
  • Duração: 130 minutos

Se existe algo muito particular na filmografia de John Lee Hancock é a sua relação com o tempo. Não há trama, tema ou expectativa para além tela que faça o realizador alterar a sua compreensão de cadência perfeita. Num grande dar de ombros, é como se ele dissesse a todos um grande “queiram o que quiserem, eu vou vou fazer do meu jeito”. Os Pequenos Vestígios, novo suspense policial do diretor, segue a mesma lógica. Numa época em que velocidade, ansiedade e reviravoltas são cada vez mais valorizadas, não deixa de ser uma aposta corajosa.

Com Denzel Washington encabeçando um elenco de primeira linha, que conta ainda com Rami Malek e Jared Leto, o diretor, que também assina o roteiro, constrói uma história intrincada de fugas do passado, questões mal resolvidas e futuros inexistentes. O jogo de contradições entre os personagens é muito bem estabelecido, principalmente pelas atuações. Leto parece personificar a tensão entre Washington e Malek, o desgosto e a fúria, respectivamente, representados em contenção e explosão.

Os Pequenos Vestígios

Os Pequenos Vestígios se baseia nessa falta de respostas, em relações imprecisas. O não saber e a indeterminação são marcados pelos caminhos obscuros destacados imageticamente pela fotografia de John Schwartzman, um especialista no cinema de ação que conhecemos do divertido e multipicotado A Rocha, de Bay, mas que foi indicado ao Oscar pelo drama Seabiscuit: Alma de Herói, e sensorialmente pela ansiosa trilha musical de Thomas Newman, esse com 15 indicações — a última por 1917, e nenhuma vitória.

Mais uma vez, Hancock poderia estar com tudo no lugar certo: o argumento, os personagens e como eles se desenvolveram, as atuações, o ambiente gerado, a contradição, o suspense, mas era preciso que as coisas tivessem um prolongamento, uma outra alma. A ideia era a de que aquilo que se vê não fosse esteticamente atual, que aquela história existisse em um outro tempo e assim se faz.

Os Pequenos Vestígios

O longa-metragem assume o seu descompasso. Não é apenas o tempo do filme, em seu desenvolvimento que está comprometido, é o tempo do filme na própria determinação. Ele nasce velho como se tivesse saído das prateleiras de uma locadora direto para o videocassete. O diretor esquece-se que mesmo que sua história seja dos anos 1990, atualizações são bem-vindas depois que determinadas tramas já foram vistas tantas e tantas vezes, muitas delas melhores — e não preciso nem citar o nome para que os espectadores a reconheçam, como a mais famosa assinada por David Fincher ou até mesmo a mais fraca com o próprio Washington e J-Lo nos papéis principais. 

Os Pequenos Vestígios tinha tudo encaminhado para chegar longe, mas deixa para trás a chance de alcançar seu próprio potencial. O caminho era bom, os embates eram promissores e a insegurança construída com as possibilidades dentro do roteiro também, só faltou olhar para tudo isso e pensar que fazer diferente era mais importante. Falta agora soltar aquela amarra da pose e pensar que outras maneiras também podem dar certo. Quem sabe um dia vai.

Um grande momento
Pelo telhado. 

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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