Crítica | Streaming

Paternidade

O coração de um pai

(Fatherhood, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Paul Weitz
  • Roteiro: Dana Stevens, Paul Weitz
  • Elenco: Kevin Hart, Alfre Woodard, Melody Hurd, Lil Rel Howery, DeWanda Wise, Frankie R. Faison, Anthony Carrigan, Paul Reiser, Deborah Ayorinde
  • Duração: 109 minutos

Mais um produto adquirido da Sony Pictures pela Netflix provavelmente ainda ocasionado pela pandemia Covid-19, Paternidade é um projeto ousado para o hitmaker Kevin Hart, popularizado no mundo pelas novas versões de Jumanji, mas que é um astro de primeira grandeza nos EUA pela suas comédias de muito sucesso por lá. O filme parece o primeiro passo do originalmente comediante para uma versão sua menos agressiva e histérica, mostrando que sua persona conhecida não apagou sua construção de intérprete. Ele é o grande chamariz do filme para o público americano, e o seu talento dramático é a isca para o resto do mundo, incluindo as pessoas que não são fãs dele.

Indicado pelo outrora celebrado Paul Weitz (indicado ao Oscar por Um Grande Garoto), Paternidade é uma tentativa do diretor em retornar a suas origens, que tem como base um cinema que investe em pés diferentes, um no cômico e outro no dramático. Não é simplesmente “mais uma dramédia”, porque o que ele faz não era realmente mais um produto da linhagem. Sempre teve uma dedicação do diretor na sensibilidade da sua narrativa, ainda que ultimamente sua carreira tenha entrado numa entre safra perigosa – alguém viu/lembra/ de Bel Canto, seu longa anterior? Esse seu novo filme é uma tentativa válida de retorno ao seu melhor momento.

Paternidade

O destaque que Weitz dá pro material, adaptado do livro autobiográfico de Matt Logelin, é o de equilibrar o que essa história tinha de carinhosa e empática pro que ela tem de leve e humana, utilizando uma base trágica familiar para contar uma história de fácil identificação, como um dia foi o mexicano Não Aceitamos Devoluções (que gerou remakes em todos os lugares, incluindo o Brasil). A partir da relação entre um pai solteiro e sua filha pequena, o filme explora a relação entre um homem que sente falta da mulher que perdeu e da menina que nunca teve mãe e precisa de um exemplo feminino; aos poucos, esses universos passam a se comunicar quanto a um assunto intocável.

Apesar da clara afetuosidade a qual o filme se dedica, Paternidade não consegue criar o arco temporal necessário para a urgência dos temas e das ausências. Por vezes lento para explorar suas relações, mas na maior parte do tempo veloz demais para que compreendamos o que cada situação ambiciona, para fazer nascer novos desejos, para construir sonhos que genuinamente se mostram pela metade, o filme demonstra potencial, mas não funciona em sua transposição literária. Parte do que é intrínseco a abraçar suas demandas são resumidas para que o filme tenha ritmo, e isso esvazia as conexões que ele precisava criar com o público e entre si.

Paternidade

Ainda assim, o filme é um produto ideal para agradar os espectadores em busca de um produto minimamente profundo e que não deixa de ser um passatempo para toda família, e que serve para a comemoração do Dia dos Pais americano, comemorado no próximo domingo. Desprovido de valores cinematográficos mais elaborados, o filme peca na montagem e passa despercebido em outros quesitos, provando seu potencial raso. Um filme menor mas que descerá no grande público como uma realização tocante, mais ou menos o mesmo lugar de Milagre Azul.

Aqui, o brilho maior é na entrega do seu astro a um lugar que não passeou anteriormente. No passado, Weitz já trabalhou com Chris Rock, igualmente um comediante popular e que agora escorregou feio em Espiral. O oposto acontece com Hart, que desde o início demonstra potencial para voos ainda mais ambiciosos no futuro, com todas as curvas que demonstra aqui. Desligado da eletricidade que costuma apresentar, tem dobradinha excelente com Lil Rel Howery (de Corra! e Bad Trip), e pode não voltar a esse registro, mas é bom que saiba que o talento que o cerca não é exclusivamente cômico, o que pode render um futuro muito fora da sua zona de conforto.

Um grande momento
A despedida de Liz

Fotos: Philippe Bosse / Netflix © 2021

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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