(Peterloo, GBR, 2018)
Drama
Direção: Mike Leigh
Elenco: Rory Kinnear, Maxine Peake, Pearce Quigley, David Moorst, Rachel Finnegan, Tom Meredith, Simona Bitmate, Robert Wilfort, Karl Johnson
Roteiro: Mike Leigh
Duração: 154 min.
Nota: 5 ★★★★★☆☆☆☆☆

Logo nas primeiras cenas, Peterloo anuncia o tipo de olhar que lança para a História: comprometido com a perspectiva dos “de baixo”, homens e mulheres tradicionalmente apagados pelo protagonismo de “grandes heróis”. O filme começa no imediato pós-guerras napoleônicas (1803-1815), acompanhando, em paralelo, o retorno ao lar do soldado Joseph (David Moorst), jovem física e emocionalmente marcado pela experiência nos campos de batalha; e a celebração, no Parlamento britânico, dos feitos do Duque de Wellington, comandante das tropas inglesas.

Peterloo está, nesse sentido, bastante afinado com o cinema de seu diretor, Mike Leigh, sempre interessado em histórias das classes populares. A forma como Leigh se dedica a registrar detalhadamente momentos cotidianos dos personagens reforça esse interesse: do trabalho na fábrica à busca vã por emprego num período de crise, do mercado à cantoria de uma mulher desabrigada nas ruas de Manchester, passando, claro, pelas muitas reuniões políticas que se repetem ao longo de todo o filme.

Nesse último caso, aliás, o diretor parece ridicularizar os discursos tanto das autoridades quanto das lideranças das causas dos trabalhadores, já que sempre carregados de excessiva pompa e verve retórica, mas pouco conectados de fato às demandas concretas dos explorados. Há duas cenas bastante emblemáticas nesse sentido: a da reunião de mulheres na qual uma das participantes verbaliza sua dificuldade de compreensão do que está sendo dito pela oradora e a da aguardada fala de Henry Hunt (Rory Kinnear) no epílogo, que, apesar de engajada em causas justas, não é ouvida pela multidão distante do púlpito.

Mas, claro, Peterloo ataca principalmente os “de cima”, representados como homens absolutamente detestáveis, figuras abjetas que não escondem o desprezo que sentem pelos trabalhadores. A caricatura criada por Leigh é tão exagerada que chega a remeter aos burgueses de A Greve (1925), de Sergei Eisenstein. O problema é que Peterloo passa longe da intensidade narrativa e da energia política do clássico soviético. Trata-se de um filme bastante “quadrado” e que se arrasta por intermináveis duas horas e meia de observação minuciosa e repetitiva de hábitos de personagens das classes populares. É um exercício interessante de olhar, mas de difícil degustação enquanto contação de história.

Vale, então, comparar Peterloo com outro filme que propõe abordagem semelhante, também contrapondo os “de baixo” aos “de cima” a partir do lugar que ocupam nas narrativas históricas e mesmo se dedicando a encenar certos hábitos dos primeiros, como as cantorias públicas: Gangues de Nova York (2002), de Martin Scorsese. A principal diferença está, novamente, na energia que Scorsese, como Eisenstein, consegue imprimir a uma história profundamente política, movida por uma fúria destrutiva. Leigh, pelo contrário (e até surpreendentemente, considerando a brutalidade naturalista de muitos de seus filmes anteriores), se revela aqui bastante comportado.

Um Grande Momento:
O funeral.

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[Festival do Rio 2018]