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Puentes en el Mar

Cores e caminhos

(Puentes en el Mar, COL, MEX, 2023)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Patricia Ayala Ruiz
  • Roteiro: Patricia Ayala Ruiz
  • Duração: 88 minutos

Vencedor de um prêmio de destaque no Cine BH 2023 para a força do povo que é filmado e que permanece como uma potência em cena, Puentes en el Mar talvez se sobressaia exatamente nesse lugar que o júri oficial do festival resolveu premiar. Com uma efetiva configuração imagética que se impõe sobre todas as coisas, esse coletivo de pessoas que se mostra constantemente reverberante em sua voz eleva a formalidade narrativa filmada para um lugar precioso. É o momento de sublinhar a potencialidade do longa através da disposição daqueles corpos e da mobilidade dos mesmos, que se debatem na direção de uma liberdade que ainda precisa ser conquistada. A união dessas pessoas vista em cena é a porta de entrada para que algo seja conseguido ainda mais sólido.

De cara, impressiona a escolha pelo azul enquanto paleta cromática. Ele não está apenas presente na maior parte dos planos, como também cria uma moldura aparente para as cenas, onde se mantém como elemento cênico chamativo. Isso não destituiu Puentes en el Mar de possíveis questionamentos quanto a essa decisão; possivelmente isso contempla a arquitetura local, mas também a essa escolha outras foram pensadas. Como a cor específica escolhida para a protagonista, toda em tons de ferrugem e barro, que não apenas contrasta com seus tons, assim como cria uma personalidade tanto ao filme como a ela. É um terreno de muita criatividade para um filme que aparentaria se garantir em uma narrativa emocional. 

A diretora Patricia Ayala Ruiz consegue transpor uma espécie de tensão coletiva a um título, que é essa população de Tomaco, assolado por uma briga entre facções rivais de gangues. Está na atmosfera de cada ambiente filmado algo que vai além dessas cores de vivacidade inegável, mas também uma preocupação palpável com algo que está em todos os lugares. A violência à espreita, uma religiosidade indiscriminada, e a fé inabalável de que essa união desconstrói tais elementos de ódio. Isso tudo está na força de sua protagonista, no olhar que ela lança para um futuro que não se imagina de outra forma que não em novo derramamento de sangue. A fé na unidade e no poder que o coletivo pode exercer é uma marca que Puentes en el Mar carrega consigo. 

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O roteiro ainda se utiliza muito bem do conceito de múltiplos lados de uma mesma história. Não exatamente como versões novas ou diferentes, mas assistir a lados que não teríamos tido aceito no painel específico, para aos poucos o quadro geral se torne completo. Puentes en el Mar olha para o mesmo grupo de eventos, mas visto primeiro com a perspectiva da mãe e depois com a do filho, que estavam em lugares diferentes no mesmo dia. Ao ligar esses dois pontos, nasce a narrativa completa, que mostra uma relação de insubordinação parental e um choque de gerações muito bem urdida a uma realidade distante de nós. Ruiz tem um escalonamento de eventos que permite ao espectador compreender seu ponto de partida, ao fim dos relatos. 

O aspecto negativo que acompanha Puentes en el Mar diz respeito a dramaturgia empregada, que destoa das ideias da autora no campo geral. Quando apresenta seu olhar no campo macro da representação, o filme soa como uma espécie de observação social de profunda conexão popular. Quando esse mesmo olhar se aproxima de seus personagens e os ouve falar mais de perto, vêm à tona uma assimilação quadrada de exposição. São planos duros, engessados por alguma emoção que soa engasgada de ser exposta; é como se cada um de seus personagens soassem como um coro afinado, mas no individual conseguimos capturar algum descompasso. Diante de um olhar tão compenetrado, é mais complexo perceber que uma realidade particular é descolada das qualidades gerais. 

Um grande momento

Na beira da praia

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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