Crítica | Outras metragens

Quem Se Move

Em trânsito

Lisboa, à noite, não acolhe. Ela observa. Em Quem Se Move, de Stephanie Ricci, a cidade aparece como um espaço de passagem permanente, onde estar não significa pertencer. René atravessa essa noite carregando algo que nunca se estabiliza, uma decisão que não se resolve, uma vida que parece sempre em suspenso. 

O filme se constrói nesse estado de trânsito. A personagem brasileira vive em Portugal em condição precária, dividida entre ficar e voltar, entre insistir e desistir. Nada se apresenta de forma direta. As informações surgem aos poucos, nos diálogos truncados, nos silêncios e em encontros que não se completam. Não há a tentativa de estabelecer um arco claro, o que existe é hesitação. 

Essa indecisão atravessa a forma. Ricci trabalha com imagens que parecem oscilar entre o movimento e a suspensão, com momentos em que a cena se fragmenta. Vide a sequência da festa construída em frames quase estáticos, que criam uma sensação de deslocamento dentro do próprio tempo. Quem Se Move é como um registro sensorial, em que a experiência importa mais do que a progressão narrativa. 

O corpo de René carrega essa instabilidade. A atuação de Olivia Torres se constrói na contenção, no olhar que observa mais do que reage, na presença que nunca se impõe completamente. Há uma melancolia constante, mas ao invéw de se transformar em dramatização, ela permanece como estado, como algo que atravessa a personagem sem precisar ser explicitado. 

Lisboa participa desse movimento e surge como espaço ao mesmo tempo íntimo e estranho, onde a convivência se dá entre iguais deslocados e não-pertencentes. Amigos, encontros, conversas. Há uma tentativa de construir pertencimento, mas ele nunca se fixa. Quem Se Move sugere que esse sentimento só existe na partilha momentânea, em pequenos agrupamentos de quem também está em trânsito.

Quem Se Move se sustenta na instabilidade. Não resolve a situação da personagem e nem organiza uma conclusão, deixando essa sensação de estar entre lugares, entre decisões, entre versões do ser. É um filme que entende o deslocamento não como etapa, mas como condição contínua.

Um grande momento
A festa

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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