Crítica | Festival

Responsabilidade Empresarial

Não existe cumplicidade, existe culpa

(Responsabilidad empresarial, ARG, 2020)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Jonathan Perel
  • Roteiro: Jonathan Perel
  • Duração: 68 minutos
  • Nota:

“Memória, verdade e justiça”. Onde fica a responsabilidade empresarial nisso?

No fim de agosto de 1979, durante o governo ditatorial do General Figueiredo foi aprovada a Lei de Anistia. Longe de ser o início de uma reconciliação para o país, a lei serviu para proteger as instituições que facilitaram a repressão durante o regime e terminaram por impedir que os militares envolvidos nas práticas de crimes internacionais e graves violações de direitos humanos, fossem culpabilizados pelo sistema judiciário brasileiro. 40 anos depois, sofremos com um governo fascista que não para de tentar distorcer a história, deixar carrascos impunes (ou endeusá-los) e com isso dá margem para que a verdade real da memória injustiçada venha à tona.

O documentarista argentino Jonathan Perel constrói seu filme partindo de uma sistemática comparativa, sucinta e direta: como um jornalista investigativo, ele fica de tocaia, de dentro do carro – do lado de fora daquelas que seriam suas locações – narrando em off os crimes contra a humanidade cometidos por empresários e pessoas em cargos importantes em várias multinacionais e empresas nacionais argentinas, colaboracionistas da ditadura.

Responsabilidade Empresarial

Muitas das indústrias e empresas já não funcionam nos locais visitados mas o que importa é o cenário fantasmagórico e digno de filme de terror que, combinado com a leitura de centenas de nomes (de cúmplices ou de vítimas) torna a experiência de assistir a Responsabilidade Empresarial aterradora.

Repetitivo, o longa de pouco mais de uma hora poderia muito bem “passar seu recado” em poucos minutos mas talvez, alongar tanto a mesma elaboração sigmatica tenha o impacto esperado pelo cineasta. Incomoda, aflinge e cansa demais saber de tantas vidas perdidas para um regime militar genocida.

São relatos de coação, sequestros e desaparecimentos forçados, tortura e assassinatos. Todos os mandantes ou executores – muitas vezes, seguranças ou funcionários da própria empresa ou fábrica – seguem sem ser investigados, processados, julgados ou mesmo conhecidos pela opinião pública da Argentina. Muitos se tornaram parte do regime, conseguindo cargos e até ministérios. E famílias ficaram despedaçadas, a partir da suspeita de que os funcionários mais engajados nos sindicatos eram subversivos e transavam a derrubada dos militares.

No lamaçal, a certeza que Responsabilidade Empresarial lega é a de que não existe cumplicidade, mas sim culpa – a responsabilidade intransferível dos empresários argentinos e estrangeiros que se beneficiaram do período de horror. E de tantos outros que sempre sangraram a América do Sul, que tramaram o colapso das democracias, em especial em repúblicas de bananas como o Brasil atual. São as elites que detém as estruturas de poder, que operam as principais multinacionais e interferem na gestão das empresas nacionais (como a Petrobrás) quem realmente decidem o futuro e não os eleitores.

Um grande momento
Na capital, Buenos Aires, naquela sede fabril que também teria sido um centro de torturas.

[9º Olhar de Cinema]

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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