Crítica | Streaming

Silverton: Cerco Fechado

Cinquenta tons

(Silverton Siege, RSA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Mandla Dube
  • Roteiro: Sabelo Mgidi
  • Elenco: Thabo Rametsi, Arnold Vosloo, Noxolo Dlamini, Stefan Erasmus, Elani Dekker, Jacques Gombault, Justin Strydom, Keaton Ditchfield, Deon Coetzee
  • Duração: 100 minutos

Não é com frequência que eventos reais inspiram filmes instigantes, competentes, e verdadeiramente tocantes. Longas biográficos, aqueles centrados em figuras emblemáticas, têm sorte ainda mais duvidosa, mas essas produções centradas em uma fatia da História, geralmente de resolução trágica, não ficam muito atrás. Cineastas como Paul Greengrass não estão reproduzindo fácil, e seu Voo United 93 é um desses exemplos de realização onde deu tudo certo. Mais modesto que a bela obra do cineasta britânico, Silverton: Cerco Fechado chega à Netflix acertando tanto quanto o recente Atentado ao Hotel Taj Mahal, outro longa pouco espalhafatoso mas muito eficiente no que pretende. Aqui, o resultado é ainda mais surpreendente.

Isso porque o filme não pretende apenas ler um sequestro histórico na África do Sul de 40 anos atrás. A trajetória dessa tomada de um banco em janeiro de 1980 por três membros de uma equipe rebelde ao apartheid no nascedouro já tinha contextos político-sociais; durante esse dia onde os eventos se desenrolam, essas questões vêm a tona através do líder do trio, Calvin Khumalo. O homem que tinha um plano precisa se adaptar ao precisar se refugiar nessa agência bancária, e transforma o seu entorno. O que o filme faz de inteligente é explorar esse conflito pessoal não apenas em seu protagonista, mas em cada personagem que surge em cena, dos mais centrais aos mais periféricos.

Silverton - Cerco Fechado
Neo Baepi/Netflix

Sem agitar uma bandeira, sem exigir posição, sem bradar questionamentos, Calvin se faz ouvir e reverbera a situação de todos pelo qual fala, indiretamente. Sua posição é tão veemente, que essa voz de liderança vai encontrando espaços abertos em cada uma das pessoas com a qual cruza. Aos poucos, Silverton vai liberando seus próprios questionamentos, confundindo-se com os do personagem principal vez por outra. Temos um grupo de pessoas desconstruídas dentro do que são e dentro do que pretendem realizar em seu domínio particular, mostrando gradações de posição muito coerentes, sem tornar-se outras pessoas. Está tudo escancarado em suas imagens, em um país onde a imagem é só a superfície de cada um.

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Não há maniqueísmo, muitas vezes a representatividade atenta para lugares onde não há saída, e os desfechos são muito diferentes entre si. No geral, é um quadro que se apresentava ainda prematuro quanto ao debate sobre a libertação de Nelson Mandela, o fim do apartheid e real igualdade étnica. Algumas cenas são concebidas de forma acurada quanto ao seu alcance, como a da fila dos negros; já em outras, uma construção mais alongada quanto a sua costura e desnvolvimento, quanto a participação do padre em cena. No coletivo, são inúmeros acertos de debate onde Medida Provisória‘ tem uma conversa igualmente produtiva, mas aqui se encontra de maneira muito melhor integrada, sem rebarbas aparentes.

Silverton - Cerco Fechado
Neo Baepi/Netflix

Em seu segundo longa, Madlakayise W. Dube filma com rigor cada uma das passagens, seja das mais bucólicas iniciais até as de profunda tensão pelas ruas de Silverton, até a chegada ao palco principal. Diferente do que poderia acontecer, em nenhum momento o ritmo cai e o filme perde seu interesse. Fruto de um esforço conjunto de elenco, direção, roteiro e cada setor técnico, esse é um daqueles achados sob o qual poderíamos esperar um tratamento burocrático a um filme de gênero batido, que nos surpreende a cada nova curvatura dramática, sem jamais esquecer de que trata-se de um trabalho de cinema que não pode perder sua indumentária estética arrojada. A pontuar o trabalho notável de design de produção e figurino, quase de atrapalhar o andamento com tamanho preciosismo.

Silverton serve como vitrine não apenas do talento que precisamos ficar de olho de Dube, também desfila questões éticas que infelizmente não saem da pauta – reparem em uma discussão (alongada) que remete ao conceito do filme Identidade. É um daqueles mosaicos onde nada atrapalha o andamento geral; há o racismo vigente, entre brancos e negros, entre negros e negros, há as discussões sociais e diplomáticas envolvendo negritude, há o caráter da culpa branca e dos brancos que não tem qualquer traço mínimo de remorso com o que promoveram e continuam exaltando. Com um trabalho tão abrangente de questões não resolvidas fora da tela mesmo quatro décadas depois, Silverton apresenta diversas fagulhas de entusiasmo de uma produção que realça, enquanto cinema, o valor de quem ainda é diariamente sufocado pelo preconceito.

Um grande momento
“Porque você não falou com a gente?”

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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