Crítica | Festival

Sono de Outono

(Autumnal Sleeps, IRL, 2019)

  • Gênero: Experimental
  • Direção: Michael Higgins
  • Roteiro: Michael Higgins
  • Elenco: Ambra Gatto Bergamasco, Natasha Everitt, Henrik Gard, John Linnane, Enda Moran, Trish Murphy, Cillian Roche, Conn Rogers, Alain Servant
  • Duração: 75 minutos
  • Nota:

Antes de começar, peço licença… que delícia é mergulhar nas imagens de Michael Higgins. Pronto. Obrigada! Voltemos à “impessoalidade”. Em toda a sua elaboração, Sono de Outono cria uma experiência perturbadora. Partindo de uma não detectável narração, ilustrada por imagens fortuitas, chega à casa do maluco Dr. Epstein. Tudo que se vê é meio aleatório, estranho, o que dá ainda mais força à aura sombria do filme.

Claramente filmado em película vencida e provavelmente usando uma câmera antiquada, Sono de Outono se fundamenta na nostalgia, no passado. Voltando ao século 19, vai buscar o gramofone, o daguerreótipo, mas não deixa de misturar tudo isso com elementos fora do tempo. O estilo está no cinema mudo dos anos 1920, mas o formato, e aqui falando de proporção de tela, depois dos anos 1930. A imprecisão proposital fortalece o surrealismo do que se vê.

Sono de Outono

A aura onírica e de horror é destacada por imagens experimentais, que misturam movimentos e cores, sombras e desfoques, além de uma trilha sinistra pontuando a tensão. Os personagens também não diferem muito disso, como se cada um fosse um experimento à parte: Baby Dee, a atemporal; os irmãos Pete e Re-Pete, saídos diretamente dos circos e carnavais de antigamente; o próprio Dr. Epstein com suas extravagâncias e fetiches, e assim por diante. O deslocamento faz parte de todo aquela universo, daquela casa, esta também uma personagem.

Na atmosfera inusitada, povoada por estranhamentos, é como se Lynch e Maddin se encontrassem num passeio pelo bosque e fossem tomar um café com Murnau em sua casa assombrada. Há ansiedade, terror e uma curiosidade quase mórbida que faz o espectador querer estar cada vez mais com aqueles personagens, todos eles. Vivenciando intensamente um sobrenatural que normalmente se quer distante.

Sono de Outono

E muito disso vem justamente da forma como Higgins molda sua história. Ainda que se perca em momentos pontuais, como na longa cena com o daguerreótipo, a criação visual é tão extasiante que esses momentos parecem menos importantes. São enquadramentos perfeitos mesmo que inusitados, iluminações curiosas, ensaios visuais magnéticos, uma arte extremamente elaborada e uma amarração muito precisa e consciente de tudo.

A experimentação e a aleatoriedade são arrematadas sem pontos em falso e configuram uma aterrorizante história de monstros e fantasmas. Jogando o espectador num ambiente completamente desconhecido, Sono de Outono consegue atingir o medo, aquele mais instintivo, e o torna efetivo. E, licença mais uma vez, mas como é preciso e incrível esse Higgins.

Um grande momento
Mexendo na agulha do gramofone.

[4º Ecrã]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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